arquivo & biblioteca

Ex-líbris da Biblioteca Eugénio de Almeida (séc. XIX)
Vasco Maria Eugénio de Almeida, Vichy, França (1922)
Projeto de uma ponte sobre o Tejo (1889)
Projeto de uma residência na Porta de Moura, Évora (1870)
Manifestação de agradecimento a Vasco Maria Eugénio de Almeida, Évora (1957)
Aqueduto da Água da Prata (séc. XIX)
Pormenor de um postal (1908)
Grupo em estância de férias

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HISTÓRIAS DE FAMÍLIA
Visita guiada | 2021-05-15, 21h00

 

Se a uma família somarmos dois ou três séculos e se aos séculos juntarmos um arquivo e uma imensa biblioteca; se depois envolvermos tudo isto numa noite de lua quase, quase nova, o resultado pode muito bem ser um serão de histórias intermináveis, umas dramáticas e marcadas pela tragédia, outras rocambolescas e repletas de aventuras, muitas certamente sobre viagens e algumas até de mistério com desenlaces surpreendentes.

Esta é a nossa proposta para assinalar o Dia Internacional da Família que se comemora a 15 de maio, um serão para ouvir e contar «Histórias de Família» do «tempo dos afonsinhos». Atreva-se também a partilhar as suas. Pode inscrever-se através deste LINK.

 

 

 

 
 

«Um eborense»

 
 

«A notícia propagou-se de forma célere. Das colunas dos jornais passou para as conversas dos cafés, para os encontros nos círculos associativos e, claro, tornou-se o tema dominante da Praça do Giraldo, um dos principais 'centros noticiosos' da cidade na época»
2021-05-05

 
     
 

Rua Cândido dos Reis (1957-05-12)
Fotografia de autor desconhecido, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida

No dia 12 de maio de 1957, Évora assistiu a uma das maiores manifestações do século XX na cidade. O motivo que levou milhares de pessoas a sair às ruas foi a vontade de expressar o seu agradecimento pela doação de uma avultada quantia destinada à construção de um centro hospitalar para o tratamento de doenças do foro oncológico.

As primeiras notícias sobre o gesto filantrópico foram publicadas no dia 4 de maio, sem identificar o nome do «benemérito» que preferira manter o anonimato. Na sua edição do dia seguinte, no entanto, o Notícias d’Évora já avançava que, «acobertado pelo pseudónimo de «Um Eborense», sabemos esconder-se uma das mais destacadas personalidades filantrópicas»[1]. No dia 6, por fim, a identidade da personalidade foi revelada. Para além de colocar termo aos rumores contraditórios que circulavam e de satisfazer a natural curiosidade que se instalara, a imprensa regional e nacional entendia ser «necessário vir a público o nome (…), para que o seu exemplo frutifique»[2].

A personalidade em causa chamava-se Vasco Maria Eugénio de Almeida ou, como então era mais conhecido entre os eborenses, «Engenheiro da Cartuxa», epíteto que lhe ficara em alusão ao antigo mosteiro, cuja intervenção de conservação e restauro o próprio tinha iniciado há cerca de uma década e onde, no final do século XIX, o seu avô, Carlos Maria, estabelecera o centro da gestão e administração, em Évora, da Casa Agrícola e a residência da família na cidade.

A notícia – que, afinal, se revelou a confirmação de uma inevitabilidade – propagou-se de forma célere. Das colunas dos jornais como o Diário Popular, o Diário de Notícias, O Século, o Diário Ilustrado, o Democracia do Sul ou o Notícias d’Évora, passou para as conversas dos cafés, para os encontros nos círculos associativos e, claro, tornou-se o tema dominante da Praça do Giraldo, um dos principais «centros noticiosos» da cidade na época.

 


Troço da estrada de Évora-Arraiolos (1957-05-12)
Fotografia de autor desconhecido, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida

A resposta dos eborenses foi a própria de quem sabe reconhecer o carácter genuíno dos gestos. No dia 12 de maio, milhares de pessoas dirigiram-se à residência do casal Vasco Maria Eugénio de Almeida e Maria Teresa Burnay de Almeida Bello Eugénio de Almeida, para expressar o seu agradecimento. Os primeiros manifestantes começaram por reunir-se cerca das 14h00 no Rossio de São Brás, iniciando aí o percurso que passou pela Rua da República, Praça do Giraldo, Rua Cândido dos Reis, e que seguiu depois até ao Mosteiro da Cartuxa pelo troço da estrada de Arraiolos correspondente à atual Avenida Condes de Vill’Alva.

A cobertura realizada pelos jornais, para além de descrever o ambiente de emoção e o caloroso aplauso que a multidão dedicou aos Condes de Vill’Alva, procurou também aferir o número de participantes. Os dados apontados variaram entre as 20 mil pessoas, referidas na edição do Diário de Notícias[3], e as 40 mil mencionadas pelo Diário Ilustrado. Face à discrepância dos números e, de certo modo, à sua inverosimilhança, é provável que o meio mais fiável de formar uma ideia quanto à ordem de grandeza da manifestação daquele domingo, 12 de maio de 1957, seja através das fotografias que, ao olhar de cada um, têm o seu modo próprio de contar a história.

Os cinco mil contos então doados ao Núcleo Regional da Liga Portuguesa Contra o Cancro seriam aplicados na construção do que ficou conhecido como o Hospital do Patrocínio, uma homenagem a Maria do Patrocínio Barros Lima, avó de Vasco Maria Eugénio de Almeida, com quem teve sempre uma relação de grande proximidade e afeto. Por vicissitudes e razões de ordem vária, a unidade hospitalar só ficou concluída mais de quatro décadas depois. Mas essa é uma outra história... Desta, a que agora se conta, talvez o mais marcante, para além das imagens das ruas de Évora repletas de pessoas, tenha sido a subtil circunstância de, pretendendo conservar o anonimato, Vasco Maria ter atribuído a «um eborense» a autoria da doação. Essa foi, de facto, a forma como sempre se viu e sentiu: um alentejano e um eborense… ainda que fosse lisboeta.

 


Pátio da Igreja do Mosteiro da Cartuxa (1957-05-12)
Fotografia de autor desconhecido, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida


NOTAS
_________
[1] Um eborense ofereceu 5.000 contos para o início imediato da construção do Centro Regional do Alentejo da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Notícias d'Évora. N.º 17027 (1957-05-05), p. 1.
[2] LIMA, Sara de Lourdes Fragoso de - Cá estou. Notícias d'Évora. N.º 17032 (1957-05-11), p. 1.
[3] Em Évora, 20.000 pessoas em grandiosa manifestação de simpatia. Diário de Notícias (1951-05-13), p. 2.

 
 

 

 
       
   

 

 

O ARQUIVO

Detentora de uma das maiores fortunas em Portugal na segunda metade do século XIX, a família do Instituidor da Fundação Eugénio de Almeida alicerçou uma parte do seu sucesso na implementação de um rigoroso sistema de informação graças ao qual foi possível assegurar ao longo de cinco gerações não só a gestão da diversidade e volume de negócios em que os seus membros participaram, mas também a administração de um vasto património imobiliário, grande parte dele fundiário e disperso pelo país. 

Mantida na sua íntegra, a documentação do arquivo permite hoje reconstituir o percurso ascensional de uma família burguesa no Portugal de oitocentos, evidenciando não só as que foram as suas opções ao nível das atividades económicas, mas também a intervenção pública que os seus membros protagonizaram como deputados, Pares do Reino, Conselheiros de Estado ou Provedores da Casa Pia de Lisboa, para além de abrir uma janela para o universo quotidiano das vivências familiares e do estilo de vida da elite deste período. 

Refletindo as atividades e a história da família Eugénio de Almeida desde o final do século XVIII até à atualidade, o âmbito cronológico do arquivo remonta, no entanto, ao século XIV como resultado da incorporação de documentação, em especial títulos de propriedade, provenientes dos cartórios de Casas Senhoriais a quem ao longo da segunda metade do século XIX foram adquiridos bens de raiz que contribuíram para a construção do “império” Eugénio de Almeida.

A documentação do arquivo permite igualmente testemunhar a obra filantrópica e mecenática desenvolvida pelo Instituidor da Fundação, Vasco Maria Eugénio de Almeida (1913-1975) sobretudo entre 1940 e 1975.

A documentação do arquivo permite igualmente testemunhar a obra filantrópica e mecenática desenvolvida pelo Instituidor da Fundação, Vasco Maria Eugénio de Almeida (1913-1975) sobretudo entre 1940 e 1975. Desde logo as ações empreendidas ao nível da salvaguarda do património arquitetónico, como foram os casos do Convento da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli, do antigo Palácio da Inquisição ou do complexo de edifícios do Páteo de São Miguel, edifícios que resgatou da ruína e aos quais conferiu um novo sentido no contexto do desenvolvimento cultural e social da cidade de Évora. 

No arquivo encontra-se também o registo da intervenção de Vasco Maria Eugénio de Almeida nos domínios social, educativo e espiritual, em que se destaca o avultado donativo para a construção do Hospital do Patrocínio (1957), a cedência de terrenos para a construção do Aeródromo de Évora e de bairros sociais, a partição da Herdade do Álamo da Horta pelos trabalhadores assalariados da povoação de São Manços (1958) ou a reativação do Convento da Cartuxa (1960), para além, naturalmente, da criação da Fundação Eugénio de Almeida em 1963. 

Pela natureza da documentação reunida no Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, a consulta do acervo reveste-se de particular interesse para a realização de investigações em domínios tão variados da história do país como a história económica e empresarial, a história social e das elites, a história da agricultura, ou ainda a história da arte e do ensino, entre outros.

 

 

 

 


A BIBLIOTECA

No sistema de informação da Casa Eugénio de Almeida a biblioteca ocupava um lugar central. Expressão da natureza pragmática de uma família de empreendedores como foram os Eugénio de Almeida, este fundo bibliográfico reveste-se de um caráter instrumental no sentido em que constitui um repositório de conhecimento e de informação sistematicamente consultada quer para instruir as tomadas de decisão, quer para servir de apoio ao estudo de temáticas associadas às suas atividades económicas ou à intervenção pública que protagonizaram. 

Uma prova da importância da biblioteca enquanto fonte de informação e de conhecimento foi a contratação, na década de 1860, de Francisco Casassa, funcionário da Biblioteca Nacional, para proceder à organização e catalogação dos milhares de obras que constituíam o acervo reunido por José Maria Eugénio de Almeida. O resultado do encargo foi a produção de um Cathalogo Methodico que passou a constituir uma ferramenta de pesquisa essencial para assegurar o acesso rápido às obras ou à informação que era necessário consultar. 

Entre as obras mencionadas neste instrumento de pesquisa, a mais antiga foi impressa em 1498 e compila todas as cartas de privilégio papais concedidas à Ordem de Cister. No entanto, a grande maioria do fundo bibliográfico da família Eugénio de Almeida é composta por livro antigo e por obras publicadas nos séculos XIX e XX nas mais diversas áreas de conhecimento - Ciências eclesiásticas, Ciências morais e políticas, Direito, Ciências naturais e exatas, Belas-artes, artes e ofícios, Literatura, História, Agricultura, Educação, etc.   

Para além desta documentação, bem como da entretanto produzida e acumulada pela Fundação desde a sua criação em 1963, o Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida tem também à sua guarda a antiga biblioteca do Instituto Superior Economico e Social de Évora (ISESE), estabelecimento de ensino criado por Vasco Maria Eugénio de Almeida em articulação com a Companhia de Jesus, que representou o regresso dos estudos superiores à cidade, cerca de 200 anos após a extinção da Universidade de Évora.

 

 

Horário 

Consulta de documentação: de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h30 e das 14 às 17h30, mediante marcação prévia. Visitas guiadas mediante marcação prévia, integradas na visita ao Paço de São Miguel. 

 

Coordenadas

38.572578º, -7.905894º

 

Contactos

arquivo.biblioteca@fea.pt

Tel. (+351) 266 748 300

 



1867

Cathalogo Methodico da Livraria do Illmo. e Exmo. Snr. Conselheiro José Maria Eugénio de Almeida, elaborado pelo bibliotecário da então designada Biblioteca Nacional de Lisboa, Francisco Casassa

   

 

 

 

  

        

 

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