arquivo & biblioteca

Biblioteca Eugénio de Almeida
Ex-líbris da Biblioteca (séc. XIX)
Vasco Maria Eugénio de Almeida (1922)
Projeto de uma ponte sobre o Tejo (1889)
Projeto de uma residência (1870)
Manifestação de agradecimento (1957)
Aqueduto da Água da Prata (séc. XIX)
Pormenor de um postal (1908)
Grupo em estância de férias

ENGLISH VERSION

 

 

O Senhor X
2022-12-17 | RC

 
 

 

 

Vasco Maria Eugénio de Almeida e o escultor Delfim Maya, embora à época não se conhecessem, tinham um amigo em comum. Chamemos-lhe, para o caso, Senhor X. Tendo conhecimento pelo Senhor X de que o artista, nascido no Porto, estaria a atravessar uma fase financeira menos desafogada, Vasco Maria considerou ser um momento oportuno para investir em arte. Com a mesma discrição que sempre utilizava nestas circunstâncias, pediu ao Senhor X que mediasse a aquisição de um conjunto de peças em bronze no valor total de 35.000$00 escudos, montante considerável para a época que, de pronto e num gesto de total confiança, passou para as mãos do Senhor X.

O prestável Senhor X, assim fez. Comprou as esculturas. No entanto, em vez de pagar o seu valor total, entregou apenas 15.000$00 escudos ao Delfim Maya, dizendo que o comprador liquidaria o restante em breve. Com um prémio de mediação indevido e autoatribuído de 20.000$00 escudos, o Senhor X depressa deu uso ao dinheiro, gastando-o até ao último centavo!

Enquanto isso, no seu atelier, Delfim Maya, esperava. Tendo sido ultrapassados todos os prazos para o pagamento das peças, começou por procurar o Senhor X que, claro, o evitava fechando-se em casa a sete chaves ou, quando isso era de todo impossível, o recebia com palavras de conforto acompanhadas de comentários pouco abonatórios em relação ao Conde de Vill'Alva que acusava de «ser um tipo insensível às dificuldades dos outros». Noutras ocasiões, o Senhor X, dava-se à desfaçatez de escrever ao Delfim Maya, vitimizando-se por ter acedido a intermediar a aquisição das esculturas:

«Caro Delfim, temos andado desencontrados e a minha vida tem sido um sarilho de andanças para ganhar o pão que a família e eu comemos. Horas desencontradas, comida a correr ou comida fora. Arranjei coisa, mas que me custa os olhos da cara e me absorve totalmente. Vejo que o homem nada lhe disse pela conversa que teve com a minha mulher. Eu acho que me meti demasiadamente no assunto com desejo que o Delfim recebesse um balão de oxigénio. Parece que dei pouca sorte e agora nem que isso traga para mim inconvenientes resolver-lhe-ei o caso. Pensei que à minha carta para lá desse resposta imediata. Não deu. Na segunda-feira à noite espero poder-lhe [haver] a coisa que arrancarei a ferros ou a cutelo. Como eu me meti do princípio como se a coisa fosse minha tenho que resolver o caso. O responsável sou eu e isto é bom que fique escrito. Até segunda-feira à noite se Deus quiser. Abraço amigo do [Senhor X]»[1].

Cansado de tantas esperas, demoras e desencontros, o escultor decidiu-se, por fim, a procurar o próprio Vasco Maria Eugénio de Almeida na sua residência de Monte Estoril para solicitar a liquidação dos bronzes. Surpreendido, Vasco Maria apressou-se a escrever ao Senhor X, conferindo-lhe ainda o benefício da dúvida. Este, entre evasivas, desculpas e justificações, lá acabou por confessar a sua falta. Propôs resolver a situação de forma amigável com o saque de uma letra sobre si próprio, funcionando o documento como título de crédito até que estivesse em condições de repor os 20.000$00 escudos.

A solução proposta foi imediatamente recusada pelo Conde de Vill'Alva que deu um prazo de seis meses para a devolução do dinheiro, justificando, de forma perentória, que não admitia transformar numa relação comercial aquilo que, de facto, era um caso de polícia e que, além do mais, esta sua intransigência seria uma forma de demonstrar que, pelo menos em relação a ele, Senhor X, o Conde de Vill'Alva, era mesmo «um tipo insensível às dificuldades dos outros».

A história assumiu contornos de caricatura quando, pasme-se, o nome do Senhor X foi atribuído à rua de uma cidade do país porque, precisamente por alturas desta apropriação indevida de fundos tinha feito doação de uma certa coleção a uma entidade pública. Teria sido esta a solução encontrada por Vasco Maria para que o caso ficasse sanado? Fosse ou não, a rua poderia hoje muito bem denominar-se «Vasco Vill'Alva» que, de forma inusitada, terá contribuído, ainda que nesta circunstância, com o seu total desconhecimento, para mais uma importante ação mecenática!

No que se refere às esculturas de Delfim Maya, encontram-se hoje no Paço de São Miguel, na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora. Uma delas, na Sala da Conversadeira, representa um cavaleiro tauromáquico e não é habitualmente alvo da curiosidade dos visitantes, por desinteressados da temática ou por estranhos aos méritos estéticos ou estilísticos da peça. No entanto, a história que esteve por detrás da sua aquisição, e que agora se conhece, confere-lhe um significado muito próprio. Constitui mais uma evidência das preocupações humanas e sociais que impulsionaram os pequenos e os grandes gestos de Vasco Maria Eugénio de Almeida ao longo de uma vida cujo rumo foi, na verdade, marcado pela enorme sensibilidade que sempre demonstrou face às dificuldades de todas e de cada uma das pessoas com as quais o seu destino se cruzou.

A prova cabal disso mesmo é que, apesar da apropriação indevida de dinheiro, da difamação e da deslealdade que o Senhor X praticou, Vasco Vill’Alva não só nunca lhe moveu nenhum processo judicial, como não o denunciou publicamente, apesar de estar na posse de toda a documentação que o permitia fazer. Essa é, aliás, a exata medida do seu carácter, e também a razão pela qual a identidade do Senhor X (aspeto absolutamente indiferente para o caso), naturalmente, aqui se omite. A história da aquisição destas peças, no entanto, pela relevância que tem para conhecer e compreender a personalidade de Vasco Maria Eugénio de Almeida, não pode nem deve deixar de ser contada[2].


Vasco Maria Eugénio de Almeida e a mulher, Maria Teresa Burnay de Almeida Bello Eugénio de Almeida, no mosteiro da Cartuxa, em 1957. Fotografia de autor desconhecido, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida

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[1] Carta do Senhor X para Delfim Maya, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida.

[2] Propositadamente, não foram mencionados neste texto datas, locais ou outros elementos de natureza idêntica. Ao longo da sua vida, apenas em dois casos se consegue identificar um tratamento diferenciado, por parte de Vasco Maria, em relação à documentação produzida, tanto de âmbito particular, como a de natureza administrativa relacionada com a gestão da Casa Eugénio de Almeida. Este foi um deles. O outro é mais uma longa história que, em comum, tem a circunstância de envolver a deslealdade de alguém em quem depositara toda a confiança e que, curiosamente, tem hoje, também, o seu nome inscrito em diversas ruas do país. Tal abordagem evidência o quanto era importante para si o cumprimento da palavra dada e o quanto o afastamento deste princípio por parte daqueles em quem confiava, o desapontava.


 

 

 

 

 

 

 

O ARQUIVO

Detentora de uma das maiores fortunas em Portugal na segunda metade do século XIX, a família do Instituidor da Fundação Eugénio de Almeida alicerçou uma parte do seu sucesso na implementação de um rigoroso sistema de informação graças ao qual foi possível assegurar ao longo de cinco gerações não só a gestão da diversidade e volume de negócios em que os seus membros participaram, mas também a administração de um vasto património imobiliário, grande parte dele fundiário e disperso pelo país. 

Mantida na sua íntegra, a documentação do arquivo permite hoje reconstituir o percurso ascensional de uma família burguesa no Portugal de oitocentos, evidenciando não só as que foram as suas opções ao nível das atividades económicas, mas também a intervenção pública que os seus membros protagonizaram como deputados, Pares do Reino, Conselheiros de Estado ou Provedores da Casa Pia de Lisboa, para além de abrir uma janela para o universo quotidiano das vivências familiares e do estilo de vida da elite deste período. 

Refletindo as atividades e a história da família Eugénio de Almeida desde o final do século XVIII até à atualidade, o âmbito cronológico do arquivo remonta, no entanto, ao século XIV como resultado da incorporação de documentação, em especial títulos de propriedade, provenientes dos cartórios de Casas Senhoriais a quem ao longo da segunda metade do século XIX foram adquiridos bens de raiz que contribuíram para a construção do “império” Eugénio de Almeida.

A documentação do arquivo permite igualmente testemunhar a obra filantrópica e mecenática desenvolvida pelo Instituidor da Fundação, Vasco Maria Eugénio de Almeida (1913-1975) sobretudo entre 1940 e 1975. Desde logo as ações empreendidas ao nível da salvaguarda do património arquitetónico, como foram os casos do Convento da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli, do antigo Palácio da Inquisição ou do complexo de edifícios do Páteo de São Miguel, edifícios que resgatou da ruína e aos quais conferiu um novo sentido no contexto do desenvolvimento cultural e social da cidade de Évora. 

No arquivo encontra-se também o registo da intervenção de Vasco Maria Eugénio de Almeida nos domínios social, educativo e espiritual, em que se destaca o avultado donativo para a construção do Hospital do Patrocínio (1957), a cedência de terrenos para a construção do Aeródromo de Évora e de bairros sociais, a partição da Herdade do Álamo da Horta pelos trabalhadores assalariados da povoação de São Manços (1958) ou a reativação do Convento da Cartuxa (1960), para além, naturalmente, da criação da Fundação Eugénio de Almeida em 1963. 

Pela natureza da documentação reunida no Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, a consulta do acervo reveste-se de particular interesse para a realização de investigações em domínios tão variados da história do país como a história económica e empresarial, a história social e das elites, a história da agricultura, ou ainda a história da arte e do ensino, entre outros.

 

 

 




 

 

 


A BIBLIOTECA

No sistema de informação da Casa Eugénio de Almeida a biblioteca ocupava um lugar central. Expressão da natureza pragmática de uma família de empreendedores como foram os Eugénio de Almeida, este fundo bibliográfico reveste-se de um caráter instrumental no sentido em que constitui um repositório de conhecimento e de informação sistematicamente consultada quer para instruir as tomadas de decisão, quer para servir de apoio ao estudo de temáticas associadas às suas atividades económicas ou à intervenção pública que protagonizaram. 

Uma prova da importância da biblioteca enquanto fonte de informação e de conhecimento foi a contratação, na década de 1860, de Francisco Casassa, funcionário da Biblioteca Nacional, para proceder à organização e catalogação dos milhares de obras que constituíam o acervo reunido por José Maria Eugénio de Almeida. O resultado do encargo foi a produção de um Cathalogo Methodico que passou a constituir uma ferramenta de pesquisa essencial para assegurar o acesso rápido às obras ou à informação que era necessário consultar. 

Entre as obras mencionadas neste instrumento de pesquisa, a mais antiga foi impressa em 1498 e compila todas as cartas de privilégio papais concedidas à Ordem de Cister. No entanto, a grande maioria do fundo bibliográfico da família Eugénio de Almeida é composta por livro antigo e por obras publicadas nos séculos XIX e XX nas mais diversas áreas de conhecimento - Ciências eclesiásticas, Ciências morais e políticas, Direito, Ciências naturais e exatas, Belas-artes, artes e ofícios, Literatura, História, Agricultura, Educação, etc.   

Para além desta documentação, bem como da entretanto produzida e acumulada pela Fundação desde a sua criação em 1963, o Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida tem também à sua guarda a antiga biblioteca do Instituto Superior Economico e Social de Évora (ISESE), estabelecimento de ensino criado por Vasco Maria Eugénio de Almeida em articulação com a Companhia de Jesus, que representou o regresso dos estudos superiores à cidade, cerca de 200 anos após a extinção da Universidade de Évora.

 

 

Horário 

Consulta de documentação: de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h30 e das 14 às 17h30, mediante marcação prévia. Visitas guiadas mediante marcação prévia, integradas na visita ao Paço de São Miguel. 

 

Coordenadas

38.572578º, -7.905894º

 

Contactos

arquivo.biblioteca@fea.pt

Tel. (+351) 266 748 300

 



1867

Cathalogo Methodico da Livraria do Illmo. e Exmo. Snr. Conselheiro José Maria Eugénio de Almeida, elaborado pelo bibliotecário da então designada Biblioteca Nacional de Lisboa, Francisco Casassa

   

 

 

 

  

        

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