arquivo & biblioteca

Biblioteca Eugénio de Almeida
Ex-líbris da Biblioteca (séc. XIX)
Vasco Maria Eugénio de Almeida (1922)
Projeto de uma ponte sobre o Tejo (1889)
Projeto de uma residência (1870)
Manifestação de agradecimento (1957)
Aqueduto da Água da Prata (séc. XIX)
Pormenor de um postal (1908)
Grupo em estância de férias

ENGLISH VERSION

  

   
 

O Sr. Flip* trouxe convidados!!!

 
 

... ou recomendações para combater uma praga de ortópteros saltadores em 1919
2022-01-25

 

 
 

 
 

Depois de ultrapassado o problema da escassez de ferro motivado pela Grande Guerra, circunstância que, em 1918, quase deitara por terra o projeto de aumentar a área de vinha da Herdade de Pinheiros, devido à falta de charruas no mercado (destaque Uma «dama» de ferro, de 2021-10-22), a década de 1910 não acabaria sem uma nova contrariedade na Casa Eugénio de Almeida. Passado apenas um ano sobre estas tribulações, Maria do Patrocínio Barros Lima e Almeida viu-se forçada a enfrentar um “velho” e perigoso inimigo: uma praga de gafanhotos.

Responsáveis, ao longo da história, pela devastação de plantações e por frequentes períodos de fome que daí resultavam, as pragas de gafanhotos eram combatidas por todos os meios na tentativa de salvar as colheitas. Os prejuízos e as consequências eram de tal ordem que, para pôr fim ao flagelo ou pelo menos minimizar os estragos, o próprio Exército[1] foi com frequência mobilizado para o apoio às populações no combate aos ortópteros saltadores, «simpáticos» à vez, mas devastadores quando «arregimentados» em nuvem.

Na Casa Eugénio de Almeida, de modo a mitigar os prejuízos causados pela «invasão» de gafanhotos, foram consultados diversos especialistas sobre as medidas mais eficazes a tomar. Através de uma carta de 10 de junho de 1919, Horácio Costa, um dos guarda-livros da casa, remeteu para Évora a informação que recolhera junto de Correia Mendes sobre este assunto.

 

«Segundo a sua opinião é já muito tarde para fazer qualquer tratamento eficaz ou mesmo com resultados satisfatórios devido aos gafanhotos já estarem alados (…)

Tudo quanto se fizer nesta altura é ineficaz para a sua extinção e de uma despesa enorme devido aos materiais e principalmente ao pessoal que está caríssimo e sem resultado algum.

O sistema de os levar de encontro aos panos é irrisório, apanhar-se-ão muitos, mas ficam para trás muitíssimos. Apanhando-os à mão, quando de manhã estão sobre as cepas, julga o Sr. Correia Mendes ser, nesta ocasião, mais prejudicial ao fruto do que o próprio gafanhoto (...)

A solução de creolina lançada por pulverizadores é eficaz quando estão em larva ou aumentando a proporção quando estão no estado de pulgão, mas nunca quando estão alados, pois que sendo o efeito desta solução caustico nunca os poderá matar neste último estado em que a sua couraça já é bastante resistente, além de que voando eles, é mais o líquido que se perde no chão que propriamente nos gafanhotos. A despesa é grande e o resultado é nulo (...)

É preciso, pois, para que haja uma extinção eficaz, que o encarregado da vinha nunca os perca de vista e observe onde as fêmeas vão pôr os ovos, o que se dá pelo outono, nunca no terreno da vinha, mas próximo, em terrenos argilosos, arenosos ou pedregosos para onde emigram nessa época. Passados uns 15 dias da completa emigração, o encarregado da vinha irá observar cuidadosa e meticulosamente esse terreno e é fácil perceber onde estão os ovos porque o terreno cria uma crosta muito superficial que é toda cheia de buracos, além de que se encontram os cadáveres das fêmeas que morrem após a postura. Geralmente a área da postura é muito limitada e só uma boa observação a determinará.

Determinada esta área, grada-se o terreno, e assim os ovos ficarão esmigalhados ou expostos à ação do tempo que seja sol ou chuva os tornará estéreis. Esta é a mais eficaz extinção e também a mais económica.

Ainda se por qualquer eventualidade falhar ou não for possível este tratamento, espera-se que nasçam as larvas o que sucede na primeira quinzena de março – sempre com muita vigilância – nascida a larva esta arrasta-se sempre em grupos pela terra e muito devagar e então entra em ação o pulverizador e a creolina numa percentagem que pode variar, segundo o tamanho da larva (…) Ainda é eficaz este tratamento no estado de pulgão que apesar de andarem aos saltos também andam em grupos, mas neste caso aumenta-se a porção de creolina que poderá ir até 30%. Daqui para diante a sua extinção é improdutiva[2].»

 

 

NOTAS
_________________________

* Gafanhoto, companheiro de aventuras da abelha Maia, personagens da obra Die Biene Maja und ihre Abenteuer, da autoria do escritor alemão Waldemar Bonsels, publicada pela primeira vez em 1912.

[1] Embora 46 anos após a data destes acontecimentos, a RTP captou imagens para o Noticiário Nacional de junho de 1965 de brigadas do Regimento de Infantaria 16 durante a campanha de combate a uma «praga de gafanhotos na região de Évora» com recurso a «atomizadores» padiola. O vídeo encontra-se disponível para visionamento no site RTP Arquivos, a quem agradecemos a autorização concedida para a partilha deste LINK.

[2] COSTA, Horácio - [Carta] 1919 jun. 06, Lisboa [a] Maria do Patrocínio Barros Lima e Almeida [Manuscrito]. 1919. F. 308. Copiador Mecânico de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal.


 
 

 

 
   

  

 

O ARQUIVO

Detentora de uma das maiores fortunas em Portugal na segunda metade do século XIX, a família do Instituidor da Fundação Eugénio de Almeida alicerçou uma parte do seu sucesso na implementação de um rigoroso sistema de informação graças ao qual foi possível assegurar ao longo de cinco gerações não só a gestão da diversidade e volume de negócios em que os seus membros participaram, mas também a administração de um vasto património imobiliário, grande parte dele fundiário e disperso pelo país. 

Mantida na sua íntegra, a documentação do arquivo permite hoje reconstituir o percurso ascensional de uma família burguesa no Portugal de oitocentos, evidenciando não só as que foram as suas opções ao nível das atividades económicas, mas também a intervenção pública que os seus membros protagonizaram como deputados, Pares do Reino, Conselheiros de Estado ou Provedores da Casa Pia de Lisboa, para além de abrir uma janela para o universo quotidiano das vivências familiares e do estilo de vida da elite deste período. 

Refletindo as atividades e a história da família Eugénio de Almeida desde o final do século XVIII até à atualidade, o âmbito cronológico do arquivo remonta, no entanto, ao século XIV como resultado da incorporação de documentação, em especial títulos de propriedade, provenientes dos cartórios de Casas Senhoriais a quem ao longo da segunda metade do século XIX foram adquiridos bens de raiz que contribuíram para a construção do “império” Eugénio de Almeida.

A documentação do arquivo permite igualmente testemunhar a obra filantrópica e mecenática desenvolvida pelo Instituidor da Fundação, Vasco Maria Eugénio de Almeida (1913-1975) sobretudo entre 1940 e 1975. Desde logo as ações empreendidas ao nível da salvaguarda do património arquitetónico, como foram os casos do Convento da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli, do antigo Palácio da Inquisição ou do complexo de edifícios do Páteo de São Miguel, edifícios que resgatou da ruína e aos quais conferiu um novo sentido no contexto do desenvolvimento cultural e social da cidade de Évora. 

No arquivo encontra-se também o registo da intervenção de Vasco Maria Eugénio de Almeida nos domínios social, educativo e espiritual, em que se destaca o avultado donativo para a construção do Hospital do Patrocínio (1957), a cedência de terrenos para a construção do Aeródromo de Évora e de bairros sociais, a partição da Herdade do Álamo da Horta pelos trabalhadores assalariados da povoação de São Manços (1958) ou a reativação do Convento da Cartuxa (1960), para além, naturalmente, da criação da Fundação Eugénio de Almeida em 1963. 

Pela natureza da documentação reunida no Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, a consulta do acervo reveste-se de particular interesse para a realização de investigações em domínios tão variados da história do país como a história económica e empresarial, a história social e das elites, a história da agricultura, ou ainda a história da arte e do ensino, entre outros.

 

 

 




 

 

 


A BIBLIOTECA

No sistema de informação da Casa Eugénio de Almeida a biblioteca ocupava um lugar central. Expressão da natureza pragmática de uma família de empreendedores como foram os Eugénio de Almeida, este fundo bibliográfico reveste-se de um caráter instrumental no sentido em que constitui um repositório de conhecimento e de informação sistematicamente consultada quer para instruir as tomadas de decisão, quer para servir de apoio ao estudo de temáticas associadas às suas atividades económicas ou à intervenção pública que protagonizaram. 

Uma prova da importância da biblioteca enquanto fonte de informação e de conhecimento foi a contratação, na década de 1860, de Francisco Casassa, funcionário da Biblioteca Nacional, para proceder à organização e catalogação dos milhares de obras que constituíam o acervo reunido por José Maria Eugénio de Almeida. O resultado do encargo foi a produção de um Cathalogo Methodico que passou a constituir uma ferramenta de pesquisa essencial para assegurar o acesso rápido às obras ou à informação que era necessário consultar. 

Entre as obras mencionadas neste instrumento de pesquisa, a mais antiga foi impressa em 1498 e compila todas as cartas de privilégio papais concedidas à Ordem de Cister. No entanto, a grande maioria do fundo bibliográfico da família Eugénio de Almeida é composta por livro antigo e por obras publicadas nos séculos XIX e XX nas mais diversas áreas de conhecimento - Ciências eclesiásticas, Ciências morais e políticas, Direito, Ciências naturais e exatas, Belas-artes, artes e ofícios, Literatura, História, Agricultura, Educação, etc.   

Para além desta documentação, bem como da entretanto produzida e acumulada pela Fundação desde a sua criação em 1963, o Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida tem também à sua guarda a antiga biblioteca do Instituto Superior Economico e Social de Évora (ISESE), estabelecimento de ensino criado por Vasco Maria Eugénio de Almeida em articulação com a Companhia de Jesus, que representou o regresso dos estudos superiores à cidade, cerca de 200 anos após a extinção da Universidade de Évora.

 

 

Horário 

Consulta de documentação: de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h30 e das 14 às 17h30, mediante marcação prévia. Visitas guiadas mediante marcação prévia, integradas na visita ao Paço de São Miguel. 

 

Coordenadas

38.572578º, -7.905894º

 

Contactos

arquivo.biblioteca@fea.pt

Tel. (+351) 266 748 300

 



1867

Cathalogo Methodico da Livraria do Illmo. e Exmo. Snr. Conselheiro José Maria Eugénio de Almeida, elaborado pelo bibliotecário da então designada Biblioteca Nacional de Lisboa, Francisco Casassa

   

 

 

 

  

        

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