Jardim

Fotografia: © Jerónimo Heitor Coelho

 
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Fruto do estado de abandono em que o edifício permaneceu antes da sua aquisição por Vasco Maria Eugénio de Almeida, do jardim da época dos Condes de Basto pouco se conserva, destacando-se a nora, a casa de fresco, a fonte, ao centro, e o oratório junto ao pano de muralha.

Nas obras de conservação e restauro empreendidas em 1958, procurou articular-se este espaço exterior com o Palácio, à luz da função de que o jardim se revestia no contexto de uma residência nobre do século XVI ainda marcada pela influência do humanismo e do renascimento. Esta opção fica naturalmente a dever-se à intervenção, ao rigor, ao estudo e à sensibilidade de Vasco Maria Eugénio de Almeida.

À semelhança do que era comum nos jardins do Portugal renascentista afetos a Palácios, este é um espaço fechado, murado, calmo e intimista, vocacionado para uma fruição lúdica mas também para a produção de alguns géneros de origem vegetal, motivo pelo qual se enquadra no conceito de horto de recreio. Esta dimensão produtiva é aqui assinalada pela presença de citrinos, em particular, das laranjeiras, que são uma constante nos jardins quinhentistas, apreciadas pelo seu carácter estético, cor, sombra e aroma.

Neste contexto, é interessante perceber que a conjugação entre as dimensões estéticas e produtivas do horto de recreio se reflete, por exemplo, na organização em canteiros e na forma plástica conferida a alguns elementos do sistema de rega: do tanque de água surge a Casa de Fresco e o miradouro e deste último a integração do jardim com a paisagem. “O tanque — espelho de água — assume um papel estruturante no espaço, gerando em seu redor locais de estar que permitiam o usufruto da sua frescura; em casos mais requintados, [como o do Paço de São Miguel] a casa de fresco junta-se ao tanque”[1].

A gruta ou casa de fresco que se encontra no topo ocidental do jardim era um local de conversação, de repouso ou de lazer utilizado durante as épocas mais quentes do ano. A frescura deste espaço resulta de se encontrar sob o tanque de água e de possuir no seu interior uma pequena fonte, para além do revestimento realizado com a técnica de embrechados.

“O trabalho de embrechado pode ser descrito como a técnica que consiste em cravar ou imbricar materiais diversos em argamassa fresca, no revestimento de paredes e tectos das mais variadas arquitecturas, e que conferem efeitos cenográficos e ornamentações insólitas, com características ora rudes e ingénuas, ora sofisticadas e eruditas. Os materiais utilizados eram variados, quanto à sua constituição e proveniência, assim como à sua forma, sendo utilizados intactos ou em fragmentos, como conchas, búzios, ou esponjas marinhas, contas, missangas, canudilhos e cacos de vidro, porcelana, faiança, mosaico ou azulejo, elementos pétreos, cristais, fósseis, corais, concreções e, do mais inédito possível como dentes de cavalo. Estas composições ornamentais e revestimentos polimatéricos, adornaram espaços sagrados ou profanos, intimamente ligados aos deleitosos ambientes de jardim, revestiram casas de fresco, fontes, cascatas, tanques, espaldares, grutas, ninfeus, nichos, conversadeiras, canteiros e alegretes e ornaram paredes e tectos de ermidas, cercas conventuais, ou ainda interiores palacianos. Manifestação erudita, popular ou com um carácter mais depurado ou severo, adquiriram um significado de ostentação, de luxo ou de excentricidade, e traduziram também em alguns ambientes monásticos, desprendimento material”[2].

A associação deste jardim ao horto de recreio renascentista é ainda reforçada pela janela manuelino-mudejar, geminada e de arcos de ferradura, localizada num dos edifícios que delimita o recinto a ocidente. Introdução da campanha de obras do século XX, trata-se de um elemento arquitetónico proveniente da demolição do antigo solar dos Morgados Pegas, localizado na Rua da República. É possível que, já nesse solar se tratasse do reaproveitamento de uma janela originária do Palácio D. Manuel, como resultado das várias amputações sofridas pelo edifício.



[1] http://www.monumentos.pt/

[2] André Lourenço e Silva - Conservação e restauro de embrechados - VIII Jornadas de Arte e Ciência: Conservação e Restauro de Artes Decorativas de Aplicação Arquitectónica [Em linha]. Prof. Doutor Gonçalo Vasconcelos e Sousa, coord., 2012. p. 167. Disponível em WWW: <http://www.artes.ucp.pt>.

 

 

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