Ex-líbris da Biblioteca Eugénio de Almeida
Vasco Maria Eugénio de Almeida (1922)
Projeto de uma ponte sobre o Tejo (1889)
Projeto de uma residência (1870)
Rua Cândido dos Reis, Évora (1957)
Aqueduto da Água da Prata (1856)
Pormenor de um postal (1908)
Grupo em estância de férias

 

 
 

«Um eborense»

 
 

«A notícia propagou-se de forma célere. Das colunas dos jornais passou para as conversas dos cafés, para os encontros nos círculos associativos e, claro, tornou-se o tema dominante da Praça do Giraldo, um dos principais 'centros noticiosos' da cidade na época»
2021-05-05

 
     
 

Rua Cândido dos Reis (1957-05-12)
Fotografia de autor desconhecido, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida

No dia 12 de maio de 1957, Évora assistiu a uma das maiores manifestações do século XX na cidade. O motivo que levou milhares de pessoas a sair às ruas foi a vontade de expressar o seu agradecimento pela doação de uma avultada quantia destinada à construção de um centro hospitalar para o tratamento de doenças do foro oncológico.

As primeiras notícias sobre o gesto filantrópico foram publicadas no dia 4 de maio, sem identificar o nome do «benemérito» que preferira manter o anonimato. Na sua edição do dia seguinte, no entanto, o Notícias d’Évora já avançava que, «acobertado pelo pseudónimo de «Um Eborense», sabemos esconder-se uma das mais destacadas personalidades filantrópicas»[1]. No dia 6, por fim, a identidade da personalidade foi revelada. Para além de colocar termo aos rumores contraditórios que circulavam e de satisfazer a natural curiosidade que se instalara, a imprensa regional e nacional entendia ser «necessário vir a público o nome (…), para que o seu exemplo frutifique»[2].

A personalidade em causa chamava-se Vasco Maria Eugénio de Almeida ou, como então era mais conhecido entre os eborenses, «Engenheiro da Cartuxa», epíteto que lhe ficara em alusão ao antigo mosteiro, cuja intervenção de conservação e restauro o próprio tinha iniciado há cerca de uma década e onde, no final do século XIX, o seu avô, Carlos Maria, estabelecera o centro da gestão e administração, em Évora, da Casa Agrícola e a residência da família na cidade.

A notícia – que, afinal, se revelou a confirmação de uma inevitabilidade – propagou-se de forma célere. Das colunas dos jornais como o Diário Popular, o Diário de Notícias, O Século, o Diário Ilustrado, o Democracia do Sul ou o Notícias d’Évora, passou para as conversas dos cafés, para os encontros nos círculos associativos e, claro, tornou-se o tema dominante da Praça do Giraldo, um dos principais «centros noticiosos» da cidade na época.


Troço da estrada de Évora-Arraiolos (1957-05-12)
Fotografia de autor desconhecido, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida

A resposta dos eborenses foi a própria de quem sabe reconhecer o carácter genuíno dos gestos. No dia 12 de maio, milhares de pessoas dirigiram-se à residência do casal Vasco Maria Eugénio de Almeida e Maria Teresa Burnay de Almeida Bello Eugénio de Almeida, para expressar o seu agradecimento. Os primeiros manifestantes começaram por reunir-se cerca das 14h00 no Rossio de São Brás, iniciando aí o percurso que passou pela Rua da República, Praça do Giraldo, Rua Cândido dos Reis, e que seguiu depois até ao Mosteiro da Cartuxa pelo troço da estrada de Arraiolos correspondente à atual Avenida Condes de Vill’Alva.

A cobertura realizada pelos jornais, para além de descrever o ambiente de emoção e o caloroso aplauso que a multidão dedicou aos Condes de Vill’Alva, procurou também aferir o número de participantes. Os dados apontados variaram entre as 20 mil pessoas, referidas na edição do Diário de Notícias[3], e as 40 mil mencionadas pelo Diário Ilustrado. Face à discrepância dos números e, de certo modo, à sua inverosimilhança, é provável que o meio mais fiável de formar uma ideia quanto à ordem de grandeza da manifestação daquele domingo, 12 de maio de 1957, seja através das fotografias que, ao olhar de cada um, têm o seu modo próprio de contar a história.

Os cinco mil contos então doados ao Núcleo Regional da Liga Portuguesa Contra o Cancro seriam aplicados na construção do que ficou conhecido como o Hospital do Patrocínio, uma homenagem a Maria do Patrocínio Barros Lima, avó de Vasco Maria Eugénio de Almeida, com quem teve sempre uma relação de grande proximidade e afeto. Por vicissitudes e razões de ordem vária, a unidade hospitalar só ficou concluída mais de quatro décadas depois. Mas essa é uma outra história... Desta, a que agora se conta, talvez o mais marcante, para além das imagens das ruas de Évora repletas de pessoas, tenha sido a subtil circunstância de, pretendendo conservar o anonimato, Vasco Maria ter atribuído a «um eborense» a autoria da doação. Essa foi, de facto, a forma como sempre se viu e sentiu: um alentejano e um eborense… ainda que fosse lisboeta.


Pátio da Igreja do Mosteiro da Cartuxa (1957-05-12)
Fotografia de autor desconhecido, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida


NOTAS
_________
[1] Um eborense ofereceu 5.000 contos para o início imediato da construção do Centro Regional do Alentejo da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Notícias d'Évora. N.º 17027 (1957-05-05), p. 1.
[2] LIMA, Sara de Lourdes Fragoso de - Cá estou. Notícias d'Évora. N.º 17032 (1957-05-11), p. 1.
[3] Em Évora, 20.000 pessoas em grandiosa manifestação de simpatia. Diário de Notícias (1951-05-13), p. 2.

 
 

 

 
       
   

Partilhar conteúdo: