As aventuras de Tom e Henry

 
 

«Os dois homens que vieram daí para grooms saíram o pior que é possível. O Henry embebedou-se aqui umas poucas de vezes e na última foi preciso mandá-lo apear da almofada, à meia-noite, no Rocio, para eu tomar conta das guias, e chegou a casa com a cabeça partida!!!»
2021-12-16

 


Postal

Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida

 

Na Casa Eugénio de Almeida, o ano de 1891 começou com uma novidade: a contratação de dois grooms ingleses para o serviço da cocheira. Oriundos de Londres, Thomas e Henry, chegaram a Lisboa, à vez, entre os meados de dezembro e os primeiros dias de janeiro, recomendados pelo Barão Sandeman.

Não se sabe ao certo os motivos que levaram Carlos Maria Eugénio de Almeida a cortar com a tradição familiar de confiar o «governo» das carruagens da Casa a cocheiros portugueses. Para além dos problemas de saúde de Vicente, o velho cocheiro da família - ultimamente acometido por «três achaques de reumatismo»[1] -, ou da dificuldade em encontrar pessoal de confiança[2] para um serviço tão «sensível» como era este, é também possível supor que uma tal mudança tenha sido ditada pelo carácter distintivo que, no imaginário da high life «nacional» da época, gozavam cidades como Londres e Paris.

De lá tinham soprado os ventos das revoluções políticas e tecnológicas que varreram o velho continente, colocando-as na vanguarda das transformações económicas, sociais e culturais de que os livros, os jornais e as viagens davam amplo eco além-fronteiras. Assumia-se – muitas vezes de forma equívoca – que quando se pretendia qualidade, requinte ou, simplesmente, boa «publicidade» social sobre o quer que fosse necessário adquirir para a comodidade ou «glória do lar», era preciso fazê-lo vir do estrangeiro, a bordo de um «vapor» anunciado na secção de partidas e chegadas do periódico do dia.

Foi mais ou menos assim que, em 1873, o Diário Illustrado, informou os seus leitores que a «viúva do Exmo. Senhor José Maria Eugénio de Almeida», regressada de Inglaterra após longos anos de ausência, «tenciona mandar fazer em Londres a mobília para o seu Palácio de São Sebastião», notícia que o jornalista não deixou de comentar com certo desapontamento, por considerar ser «pena que [a mobília] se não faça em Lisboa onde há magníficos estabelecimentos de marcenaria»[3].

Esta era, aliás, uma prática comum, entre as famílias mais abastadas. Do estrangeiro encomendavam-se lustres, carruagens, arreios, livros, utensílios domésticos ou de uso pessoal, serviços de mesa, elevadores, porcelanas, roupas, tintas para os aparos do escritório, pianos, bilhares e até cavalos como aqueles cujo preço Carlos Maria regateou em carta endereçada ao fornecedor Holmes & C.ª, de Derby, com o argumento que «the horses can be get in good conditions now because the “bicycles” have made in England and everywhere, even in Lisbon, a tremendous victory over carriages and horses»[4].

Num outro âmbito, o do pessoal empregado no serviço interno da casa, embora com carácter mais pontual, verificava-se uma lógica semelhante, através da contratação de colaboradores oriundos de outras latitudes para o desempenho de certas funções que, pela sua natureza ou pela valorização que lhes era atribuída no trem de vida de uma família da «elite» social, poderiam contribuir para a construção ou reforço da imagem desse estatuto quando eram exercidas com pronúncia estrangeira. Algumas profissões eram particularmente valorizadas sob este ponto de vista, como os cozinheiros, os empregados de quarto, os precetores das crianças e, claro, os próprios cocheiros.

Fosse ou não esta a razão para a contratação dos grooms ingleses, o certo é que no início de 1891, Thomas e Henry estavam ao serviço da Casa Eugénio de Almeida. Seria, no entanto, por pouco tempo. Ao contrário do que sucedera noutras ocasiões, como a da perceptora Elisa Washington Carden que, enquanto responsável pelo ensino dos filhos de José Maria Eugénio de Almeida se mantivera ligada à família durante anos, os grooms ingleses acabaram por ser dispensados logo no final de fevereiro, escassos dois meses após a sua chegada a Lisboa, pelas razões que Carlos Maria expôs, deveras arreliado, em carta dirigida ao Barão Sandeman em 1 de março de 1891:

«Os dois homens que vieram daí para grooms saíram o pior que é possível. O Henry embebedou-se aqui umas poucas de vezes e na última foi preciso mandá-lo apear da almofada, à meia-noite, no Rocio, para eu tomar conta das guias, e chegou a casa com a cabeça partida!!! No serviço da cocheira tudo está sujo e porco. Enfim, uma verdadeira lástima.

O Thomas quando chegou nem sabia servir-se do macaco para levantar as rodas para as lavar. Lavava as rodas sem as levantar! E guiava como quem conduz um carro de hortaliça para a praça. As mãos muito separadas, as rédeas numa e o pingalim sobre os cavalos. Imperfeito em tudo, fazendo tudo a correr e dizendo sempre mal dos outros. Também se embriagou.

Saíam de casa com a chave da cocheira e vieram por diversas vezes às três da manhã. Só agora é que muito dizem! O Henry devia ter sido preso pelos distúrbios que fez em casa. Só lanternas, partiu duas a meter os trens para a cocheira. Eles nem escovavam o fato! Levantavam-se às 8 horas da manhã! O Thomas é muito velhaco, fazendo-se de muito humilde (…) furtou um par de botas do fardamento e deu os pés a um dos moços e os canos foram encontrados debaixo de uma cómoda!

Enfim, meu amigo, vejo que o iludiram quando lhe recomendaram estes dois grooms e pena tenho de ter feito tanta despesa com eles e por fim ser envergonhado por eles em Lisboa porque estas coisas sabem-se e todos dizem que eu fui procurar cocheiros ingleses que saíram muito pior que os portugueses. Já lá vão e Deus os leve em bem, mas nunca na minha vida quero mais criados ingleses.

Desculpe meu amigo este desabafo, porque o meu amigo se fiou nas informações que lhe deram, mas os homens não corresponderam a essas informações»[5].

Não se creia, no entanto, que a resistência em contratar pessoal estrangeiro para o serviço da casa foi duradoura. Transcorridos três anos, o assunto voltou à ordem do dia, chegando-se mesmo a publicar anúncios nos jornais e a estabelecer as condições para a contratação de um novo cocheiro inglês com o salário mensal de 36$000 réis, «quarto e roupa de cama para o seu serviço», «dois fatos» e o pagamento da alimentação em caso de deslocações para fora de Lisboa[6]. À cautela, não se previa, ao contrário do que sucedera no passado, o pagamento da viagem de regresso a Inglaterra na eventualidade de o desfecho ser idêntico ao protagonizado por Thomas e Henry. Talvez por isso, desta vez, os termos não foram aceites pelo candidato ao lugar e as carruagens continuaram a cargo de cocheiros portugueses. Também por pouco tempo. Em breve, lá de fora, chegaria uma outra moda. Chamava-se automóvel…

 

NOTAS
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[1] ALMEIDA, Carlos Maria Eugénio de - [Carta 1890 dez. 9, Lisboa [ao] Barão Sandeman, Londres [Manuscrito]. 1890. F. 261-264. Copiador Mecânico de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1/PORT: 1/2/PRAT: 5/LIV: 42.

[2] A corporação dos cocheiros, fossem eles de «praça» ou «particulares», não gozava da melhor das reputações. São frequentes as notícias da imprensa da época sobre a sua conduta pouco abonatória que incluía atropelamentos, participação em rixas e altercação da ordem pública, maus tratos a animais e até agressões a passageiros. A preocupação em travar estes comportamentos encontra-se bem evidente em dois artigos do Diário Illustrado datados, sensivelmente, do período em que os dois grooms ingleses passaram por Lisboa: a) «Fizeram ontem passagem da 1.ª, 3.ª e 4.ª divisões policiais para a 2.ª, 76 guardas. Esta transferência tem por fim aumentar o pessoal desta divisão para poder começar hoje com o máximo rigor o serviço policial nas ruas mais concorridas e evitar que os cocheiros, com as suas batidas, continuem a amolgar as costelas dos transeuntes, dando-lhes algumas vezes a morte. Lembra-nos que há tempo também, por causa de um atropelamento que causou a morte do atropelado, se tomaram por alguns dias idênticas providências. Oxalá que o digno comissário da 2.ª divisão, o Sr. Dr. Pedroso de Lima, tome agora a peito manter na ordem, os senhores cocheiros que se julgam em país conquistado, conservando por mais algum tempo que da outra vez estas rigorosas providências» - Diário Illustrado. Lisboa: Imprensa de Souza Neves. N.º 6392 (1891-01-17), p. 3. b) «Uma vergonha de Lisboa. Muita gente não presta atenção ao caso, mas não sucede outro tanto a quem é observador e tem um bocadinho de coração, e ainda menos aos estrangeiros, costumados a verem lá fora polícia bem feita, e os carrascos dos animais punidos como merecem. Referimo-nos a essa cena interminável, repugnante, vergonhosíssima dos maus tratos dos carroceiros aos animais. Que nos desculpem os senhores carroceiros, mas na sua classe há um tal número de patifes, que não só envergonham os colegas que mereçam a qualificação de homens de bem – porque os deve por lá haver -, mas também a cidade que, por causa deles e de outros sujeitos da mesma força, como são diversos carreiros e cocheiros, dá de si a ideia mais deplorável e desgraçada. Ontem foi preso o carroceiro José Soares, porque maltratou o animal que lhe puxava a carroça. A bestiaga de dois pés terá no tribunal um pequeno castigo e virá cá para fora vingar-se no infeliz quadrúpede que lhe cair nas mãos. E a cena é de todos os dias, uma cena repelente, constante, que se estende a todos os pontos da cidade, e observada pelos de casa e por estranhos, que vão daqui mal impressionados apontar-nos no seu país como um povo selvagem. A polícia, sejamos justiceiros, não pode ver tudo e, portanto, apenas por cada cem daqueles carrascos conduzirá à esquadra um ou dois. Mas o público é que vê tudo e comenta, lamentando-se de tal patifaria que nos envergonha a todos. Estude-se a maneira de pôr cobro a semelhante espetáculo» - Diário Illustrado. Lisboa: Imprensa de Souza Neves. N.º 6445 (1891-03-12), p. 3.

[3] [A viúva do Exmo. Senhor José Maria Eugénio de Almeida tenciona mandar fazer a Londres a mobília para o seu palácio de São Sebastião…]. Diário Illustrado. Lisboa: Imprensa de Souza Neves. N.º 415 (1873-09-28), p. 1.

[4] ALMEIDA, Carlos Maria Eugénio de - [Carta] 1896 nov. 12, Lisboa [a] Holmes & C.ª, Londres [Manuscrito]. 1896. F. 17-19. Copiador Mecânico de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1 / PORT: 3/PRAT: 4 /LIV: 2.

[5] IDEM - [Carta] 1891 mar. 01, Lisboa [a] Barão Sandeman, Londres [Manuscrito]. 1891. F. 51-55. Copiador Mecânico de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1/ PORT: 1/2 /PRAT: 5 /LIV: 43.

[6] IDEM - [Carta] 1893 dez. 06, Lisboa [Manuscrito]. 1893-1894. F. 186. Copiador Mecânico de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1/ PORT: 1/2 /PRAT: 5/LIV: 47.


 
 

 

 
   

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