ÍNDICE DE CORRESPONDÊNCIA
EXPEDIDA DA CASA EUGÉNIO DE ALMEIDA

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José Maria Eugénio de Almeida (13-11-18711 a 23-04-1872) foi um dos grandes «protagonistas» do período da «Regeneração» em Portugal. Formado em Direito, Deputado, Par do Reino, Conselheiro de Estado, Comendador e Provedor da Casa Pia de Lisboa, destacou-se sobretudo como empresário industrial e agrícola, atividades que implicaram o estabelecimento de um rigoroso sistema de escrituração transversal a todos os domínios da sua administração.

Numa época sem as tecnologias de que hoje dispomos, a comunicação regular entre a administração da Casa Eugénio de Almeida e as múltiplas entidades, públicas e privadas, coletivas e singulares, fez-se através da troca regular de correspondência, meio pelo qual se fechavam ou desfaziam negócios, expediam orientações para os representantes da Casa nas principais capitais europeias, definiam procedimentos contabilísticos de gestão, ajustavam encomendas e fornecimentos de todo o tipo de bens e serviços, determinavam as ações a desenvolver pela malha de administradores regionais dispersos pelo país, etc.

Veículo de comunicação imprescindível, a correspondência era também um meio de prova de tudo quanto se determinava e dos compromissos assumidos, apresentando-se como um suporte fundamental ao quotidiano da gestão e das respetivas tomadas de decisão, função que o próprio José Maria deixou bem clara na resposta dada em 1868 a uma carta de António Joaquim da Silva Negrão, na qual reclamava o pagamento de benfeitorias realizadas num edifício da «Senhora do Verde», em Alvor, Portimão: «o que se tratou há de estar escrito, segundo o hábito invariável que sigo, mas não tendo aqui os papéis do meu escritório, nada mais posso dizer a este respeito, senão que tanto V. Senhoria como eu sabemos que, o que tratámos, se cumpre»
[1].Copiador de correspondência expedida T (1868-03-21 a 1868-10-09), fl. 197v-198, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida

A importância atribuída à cópia integral da correspondência expedida, é possível ser hoje verificada também pela qualidade dos suportes utilizados no seu registo, cuidado, aliás, presente nas próprias encomendas dos materiais que José Maria Eugénio de Almeida fazia para esse fim, como deixou expresso em carta endereçada para Londres, a J. B. G. Oliveira, em 1861, na qual solicitou a remessa de «doze garrafas de boa tinta de escrever em livros de escritório. Recomendo sobretudo que ela seja de qualidade tal que não se altere depois na cor nem corte o papel: é destinada a escrever em livros que se desejam conservar com esmero. Mando a V. Sra. o address da loja onde comprou a última tinta que fez favor de remeter-me, mas desejo que esta agora seja ainda melhor»
[2]. Copiador de correspondência expedida K (1860-01-11 a 1862-01-03), fl. 152-153, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida
José Maria procurava evitar as tintas sépia, que tendiam a desvanecer-se com o tempo, e as tintas ferrogálicas cuja composição acabava com frequência por provocar um efeito de «rendilhado» do papel, perfurando-o na zona formada pelas letras.

Nada do que se referia à correspondência era deixado ao acaso. Para além da data e do nome do destinatário, como era natural, a cada carta eram atribuídos dois números de identificação. O primeiro, sequencial, ordenava-as no universo de todas as cartas expedidas pela Casa Eugénio de Almeida desde o início da sua atividade; o segundo, designado «número individual» referia-se à numeração das cartas enviadas a um mesmo destinatário, o que permitia ter presente, a todo o momento, o volume de correspondência trocado com uma dada entidade e, sobretudo, facilitar a remissão entre missivas, para o que se contava ainda com a enumeração autónoma dos diversos assuntos em cada carta. A estrutura interna dos dados relativos à correspondência expedida continha, assim, os elementos essenciais à elaboração do que seria o principal ponto de acesso a esta informação, o respetivo índice que, no entanto, e por razões que se desconhecem, não chegou a ser completado em vida de José Maria Eugénio de Almeida.

Na passagem dos 210 anos do seu nascimento, homenageamos a memória desta personalidade incontornável na História da família Eugénio de Almeida, com a disponibilização online do índice relativo à correspondência por si expedida entre 1845 e 1872, constituída por um total de 7996 cartas endereçadas a 735 entidades, individuais ou coletivas, para 156 diferentes localidades e registadas em 32 livros.

Índice dos pimeiros copiadores de cartas, 1860
Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida
[Download]
José Maria Eugénio de Almeida, (1811-1872)
Litografia de 1856 da autoria de Ignaz Fertig
Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida



SOBRE JOSÉ MARIA
EUGÉNIO DE ALMEIDA

FONSECA, Helder Adegar; REIS, Jaime - José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração. Análise Social. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. ISSN 0003-2573. N.º 99 (1987), p. 865-904. 

MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho - Estuques de Paris e "parquets" de Bruxelas num palácio oitocentista de Lisboa. In MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho; CARITA, Hélder; MALTA, Marize - A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro: Anatomia dos Interiores. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa; Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014. ISBN 978-989-99192-0-4. p. 444-471.

IDEM - Gosto e mobiliário: as encomendas da família Eugénio de Almeida ao marceneiro parisiense Henri-Auguste Fourdinois. In RODRIGUES, Ana Duarte, coord. - O gosto português na arte. Lisboa: Scribe, 2016. ISBN 979-989-8410-55-9. p. 83-101.

SARDICA, José Miguel - Economia e política no século XIX português. O caso biográfico de José Maria Eugénio de Almeida. Gaudium Sciendi [Em linha]. N.º 1 (março 2012), p. 13-34. [Consult. 2012-11-26].

IDEM - José Maria Eugénio de Almeida: Negócios, Política e Sociedade no Século XIX. 2.ª ed. Évora: Fundação Eugénio de Almeida, 2016. 311 p. ISBN 978-972-8854-79-9.

SILVA, Carlos Manique da - As reformas do ensino na Casa Pia de Lisboa ou a primeira imagem da escola primária moderna (anos de 1860-1870). Historia de la Educación. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca. ISSN 0212-0267. Vol. 30 (2011), p. 241-262.




GRÁFICO 1
Vinte principais destinatários em
volume de correspondência expedida
pela Casa Eugénio de Almeida
(1845-1872)

D01 Couceiro, António de Abreu D02 Pádua, António Maria de D03 Filipe, Joaquim D04 Branco, Francisco Carlos D05 Knowles & Foster D06 Silva, Manuel Joaquim da D07 Monteiro Júnior, Manuel António D08 Société Générale du Credit Mobilier D09 Rosário, Joaquim José de Matos D10 Rosado, Francisco Joaquim de Soure D11 Fernandes, Justiniano D12 Ramalho, Inácio Fiel Gomes D13 Neves, Joaquim Higino Ribeiro D14 Galaghar Júnior, Francisco José D15 Negrão, António Joaquim da Silva D16 Miqueletorena Hermanos D17 Osório, Joaquim Felizardo da Cunha D18 Abaroa Uribarren & Goguel D19 Almeida, João de Brito Pimenta de D20 Sarmento, Rafael Maria da Silveira

 



GRÁFICO 2
Vinte principais localidades de destino
em volume de correspondência expedida
pela Casa Eugénio de Almeida
(1845-1872)





L01 Évora L02 Portimão L03 Lisboa L04 Paris L05 Londres L06 Barquinha L07 Reguengo de Alvor L08 Vila Viçosa L09 Mirandela L10 Madrid L11 Moura L12 Elvas L13 Porto L14 Abrantes L15 Faro L16 Estremoz L17 Montemor-o-Novo L18 Santarém L19 Barcelos L20 Bruxelas

 



GRÁFICO 3
Evolução da produção anual da
correspondência expedida
pela Casa Eugénio de Almeida
(1845-1872)