Notas biográficas dos artistas
Diana Mordido Aires
Diana Mordido Aires (1997, Beja) tem desenvolvido o seu percurso em torno de processos criativos, saltitando entre a autoria, curadoria, produção, comunicação e mediação cultural. É licenciada em Mediação Artística e Cultural e frequentou o curso de Pintura na FBAUL. É especializada em Produção Artística - Ourivesaria, pela Escola Artística António Arroio. Tem colaborado com diferentes entidades culturais com as quais implementa diferentes atividades e/ou projetos de investigação, procurando criar espaços de aprendizagem não formal em torno de práticas artísticas experimentais. De momento é mestranda do curso de mestrado Práticas Artísticas em Artes Visuais da Universidade de Évora.
A sua prática artística explora a paisagem à procura de pistas do que significa pertencer a um território. A partir do conceito de “espécies invasoras” tem procurado gestos e situações performáticas entre o corpo humano, o botânico e o têxtil, através de caminhadas em que identifica e recolhe essas plantas, para depois explorar as suas cores, texturas e sabores. Pretende familiarizar-se com estas espécies, investigando o seu passado no território alentejano e apresentando-lhes algumas técnicas artesanais, como a extração de pigmentos, com as quais cria paralelos entre a expansão de manchas de cor e o alastrar destes corpos, conjugando diferentes camadas, transparências e densidades.
Esta vasta região, que remete para as origens da artista, tem sofrido várias alterações e intervenções, num ritmo cada vez mais acelerado e globalizado. Face a um contínuo remexer da terra, alguns dos laços formados pelas gerações anteriores rompem-se, contudo, o seu conhecimento profundo e muito próprio daquilo que nos rodeia é salvaguardado pelas técnicas tradicionais, que aqui se propõem como catalisadores de novas relações com estas espécies persistentes e resilientes.
Na instalação “Quem vai ao ar” é apresentada uma coreografia de imagens, projetada em tecido, que remete para as diferentes etapas de crescimento dos microrganismos presentes nestas plantas. Com as próprias plantas, as tintas naturais e o agar-agar, os fungos e bactérias ganham formas visíveis a olho nu, invadindo, crescendo, desaparecendo e ressurgindo de formas inesperadas.
Ana Carapinha
Nascida em 2001, licenciou-se em Artes Plásticas e Multimédia, no Departamento de Artes Visuais e Design, da Escola de Artes da Universidade de Évora (DAVD/EA/UÉ), onde atualmente frequenta o Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais. O seu trabalho tem como foco principal a relação entre espaço, memória e objetos do quotidiano, explorando instalações que reconstroem narrativas de identidade através da materialidade.
Habita-me é uma instalação que resulta de uma investigação plástica e conceptual sobre a casa enquanto lugar de memória, identidade e intimidade. O meio de estudo explorado de um espaço habitacional deixado para trás por uma mulher de seu nome Elisa. Através dos objetos que permanecem e das histórias partilhadas, a artista explora, por meio da sua prática, a possibilidade de reconstruir fragmentos da identidade de Elisa, interligando memória, presença e ausência. A obra desenvolve-se como um percurso visual e sensorial que interliga objetos antigos, materiais recolhidos do próprio espaço e elementos construídos especialmente para a obra, articulando assemblagem e escultura.
A instalação é composta por três “divisões” interligadas física e simbolicamente. O primeiro é uma recriação do quarto, a divisão mais pessoal da casa, apresentado como espaço de introspecção, onde os objetos revelam a sua carga afetiva e o tempo inscrito nos objectos, evocando a memória da antiga habitante, através do olhar do espectador. O sofá, construído de raiz a partir de objetos recolhidos na própria casa, foi construído a partir de 600 livros de romance, todos eles lidos por Elisa. Uma clara transformação e ressignificação do espaço doméstico. A terceira componente da instalação é constituída por duas malas de viagem, transformadas em pequenas vitrines cenográficas. Cada mala funciona como uma tela tridimensional que encena miniaturas de espaços interiores, jogando com o sentido da memória e a ideia de transportar consigo “a casa às costas”. Nestes pequenos cenários, condensam-se vivências e a dualidade entre a presença e a ausência de Elisa.
Diogo Ognyanov
Diogo Ognyanov (n. 2003) é um artista 3D e criador de efeitos visuais cuja prática artística se inscreve na convergência entre arte, tecnologia e emoção. Licenciado em Artes Plásticas e Multimédia pela Universidade de Évora, atualmente mestrando em Práticas Artísticas em Artes Visuais, centra a sua investigação na criação de ambientes visuais que exploram temas universais como a transição, o tempo e a existência.
O seu trabalho recente, “Entre o Brilho e o Silêncio”, investiga a transição entre a vida e morte através de ambientes virtuais imersivos. A obra estrutura-se como um túnel simbólico, onde formas, cores e luzes evoluem da vitalidade intensa da vida para a serenidade introspectiva da morte. O projeto é desenvolvido no software Blender e refinado em Premiere e After Effects. O projeto ganha uma nova dimensão com a introdução de interatividade em tempo real através do TouchDesigner, permitindo que os espaços respondam a gestos das mãos e a frequências de áudio. Este diálogo entre o corpo do espectador e o ambiente digital intensifica a experiência imersiva e emocional da obra.
O público é convidado a interagir com a obra de forma intuitiva: gestos simples das mãos ativam diferentes transformações no espaço digital, como alterações na exposição, variações cromáticas e distorções visuais. Para orientar essa interação, serão disponibilizadas instruções visuais com os gestos reconhecidos pelo sistema, facilitando a imersão e experiência sensorial.
Katerina Belakva
É uma artista multidisciplinar que trabalha nas áreas da fotografia, videografia, ilustração, cerâmica e arte mista. A sua prática criativa baseia-se na observação e desenvolve-se na interseção entre arte conceptual e antropologia cultural. Posicionando-se como uma artista-antropóloga, investiga as dicotomias da cultura e da sociedade contemporâneas — como tradição versus progresso, identidade versus anonimato, ou natureza versus tecnologia — apresentando os resultados da sua pesquisa através de diversos meios visuais e materiais. Atualmente, frequenta o Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais na Universidade de Évora, com enfoque em práticas experimentais e investigação visual.
Sacred é um projeto que utiliza diferentes media para explorar a fronteira emocional entre o mundo exterior hostil e os espaços pessoais que criamos para segurança, proteção e pertença. Através de um processo assente na fotografia, recolhe e documenta objectos aparentemente insignificantes ou descartados, que evocam uma sensação surpreendente de conforto ou ligação emocional. As suas fotografias servem tanto de arquivo como de ponto de partida para o desenvolvimento de trabalhos com diferentes níveis de significados e multidimensionais, que revelam o valor simbólico e psicológico das coisas materiais. Ao questionar a razão pela qual certos objectos, muitas vezes vistos como inúteis ou superficiais, trazem uma sensação de segurança, o projeto convida à reflexão sobre a forma como a memória, a vulnerabilidade e a sobrevivência emocional estão codificadas na forma material. Ao ultrapassar os limites da fotografia tradicional e ao explorar formatos de apresentação imersivos, o trabalho procura envolver o espectador num diálogo tranquilo mas urgente sobre o que significa sentir-se "em casa" num mundo precário.
Nathalia Melo
Nathalia Melo (n. Brasília, 1995) é licenciada em Artes Plásticas e Multimédia pela Universidade de Évora (2023), onde atualmente frequenta o Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais. Sua investigação artística desenvolve-se a partir de uma abordagem transdisciplinar e visa uma integração de múltiplos elementos: entre esculturas, projeções audiovisuais e luzes que se dispõem na criação de ambientes imersivos, multissensoriais e metafísicos.
Transmutação evoca uma atmosfera de expansão da consciência e estados alterados da matéria, propondo uma passagem que atravessa dimensões e transcende fronteiras entre o visível e o invisível, o real e o onírico, — convida o espectador a habitar um espaço-tempo outro, onde o ato artístico opera como catalisador de percepções ampliadas, que elevam-se no sobrevoar de novos horizontes, utopias e cosmovisões.
Taíssa Silva
Taíssa Silva, nascida em 2003, licenciou-se em Artes Plásticas e Multimédia, no Departamento de Artes Visuais e Design, da Escola de Artes da Universidade de Évora (DAVD/EA/UÉ), onde atualmente frequenta o Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais.
O seu trabalho desenvolve-se em torno da construção da identidade, entendida como um processo em camadas, atravessado por memórias, silêncios e até fragmentos do quotidiano. Através de uma abordagem mais autobiográfica, procura entender as tensões entre o que se mostra e o que se oculta, o que permanece e o que se transforma. As duas obras apresentadas dialogam entre si ao abordar a identidade como algo em constante reconstrução, feito de sobreposições, perdas e reencontros.
Na instalação têxtil, panos recortados com silhuetas da própria artista tornam-se suportes de tinta e costura. As manchas de tinta evocam as camadas que compõem a identidade. São manchas instáveis e orgânicas. As costuras traçam conexões entre essas camadas e a memórias, construindo um corpo simbólico em constante mutação. Cada ponto marca uma presença, cada mancha uma história.
Na segunda peça, a construção da identidade dá-se em tempo real, num gesto performático de manipulação da imagem. Acetatos com fotografias pessoais são sobrepostos, acontecem ocultações, desenhos sobre as imagens e composições são criadas. Apenas as sombras das mãos e as imagens projetadas são visíveis. O invisível torna-se presente e a identidade torna-se um processo composto por esquecimentos e reinvenções.