Flor do Maracujá e Manto Ungido: Arte e Resistência à Violência contra Mulheres Indígenas Brasileiras
Rosemary Pinto
EXPOSIÇÃO
Curadoria de Teresa Veiga Furtado e Luís Afonso
De terça-feira a domingo, 10h00-13h00 / 14h00-19h00 | Entrada livre
O Curso de Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais, integrado no Departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora (DAVD/EA/UÉ), orienta os seus estudantes para o desenvolvimento de investigação artística (arts-based research) ancorada em interesses individuais, promovendo simultaneamente a exploração crítica e criativa dos dispositivos conceptuais, formais e tecnológicos que configuram o complexo território da arte contemporânea. A exposição Flor do Maracujá e Manto Ungido: Arte e Resistência à Violência contra Mulheres Indígenas Brasileiras, patente no espaço Atrium do Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, reúne um conjunto significativo de trabalhos desenvolvidos por Rosemary Pinto (Maranhão, Brasil, 1970), artista visual e estudante finalista do referido mestrado. Neste contexto expositivo, as obras apresentadas materializam-se através de uma pluralidade de meios – da escultura ao vídeo, passando pela pintura, instalação, tecelagem e tinturaria — evidenciando uma prática artística multimédia e interdisciplinar. O espaço Atrium configura-se, assim, como um laboratório experimental, onde se ensaiam disposições, articulações e configurações espaciais, potenciando leituras críticas e relações sensoriais entre as obras e o público.
A presente exposição constitui um dos resultados da investigação artística desenvolvida no âmbito do curso de mestrado, a qual procura analisar de que modo a prática artística contemporânea, orientada por uma perspetiva decolonial, pode contribuir para a problematização e o enfrentamento das múltiplas formas de violência que afetam as mulheres indígenas no Brasil. O projeto assume a arte como dispositivo de consciencialização crítica, denúncia e resistência, funcionando também como instrumento de empoderamento e de amplificação da visibilidade das comunidades indígenas latino-americanas, com particular incidência no contexto brasileiro. A artista mobiliza dois elementos de matriz tupi: o Manto Tupinambá, designado “assojaba”, indumentária ritual de carácter sagrado associada à autoridade e ao prestígio, tradicionalmente reservada a chefes em contextos cerimoniais; e o maracujá, termo que significa “alimento em forma de cuia”, alusivo ao fruto arredondado cultivado e consumido pelos povos originários antes da chegada dos colonizadores europeus, capaz de florescer em condições adversas, cuja flor remete à paixão de Cristo.
As metáforas do manto ungido e da flor do maracujá, símbolos de renascimento, transformação e resistência, entrelaçam-se com as lutas das mulheres indígenas, transmitindo uma mensagem de esperança e justiça. Os resultados obtidos evidenciam o carácter multidimensional da violência exercida sobre mulheres indígenas, abrangendo dimensões física, sexual, psicológica, simbólica, económica, institucional, estrutural, territorial, ambiental, cultural e epistémica. Estas dimensões articulam-se entre si e encontram-se enraizadas em sistemas históricos de dominação de matriz colonial, patriarcal e racista. Prevê-se que esta exposição fomente nos visitantes uma reflexão crítica acerca do papel da arte enquanto agente potenciador de transformação social, sublinhando simultaneamente a necessidade de assegurar às mulheres indígenas o acesso efetivo a serviços essenciais, designadamente nas áreas da saúde, da educação e da justiça. Acresce que o projeto se propõe constituir uma referência para o desenvolvimento de iniciativas educativas e comunitárias promovidas por organizações de apoio às mulheres indígenas na América Latina.
MARIA ROSEMARY DE JESUS PINTO
Nasceu em 1970, no Maranhão, Brasil. É artista e Professora Formadora no Núcleo de Formação Antonino Freire (NUFAF), integrado na Escola de Governo do Estado do Piauí (EGEPI), licenciada em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), e atualmente finalista do Curso de Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais do Departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora (DAVD/EA/UÉ), onde desenvolve investigação artística centrada na relação entre arte, género e comunidades indígenas. A sua prática, apresentada nesta exposição em formato multimédia, concentra-se no combate à violência contra mulheres indígenas sob uma perspetiva decolonial, mobilizando as metáforas da flor do maracujá e do manto ungido como instrumentos de consciencialização, denúncia, resistência, empoderamento e visibilidade das mulheres das comunidades indígenas latino-americanas, com especial incidência no contexto brasileiro e na articulação entre memória, corpo e território.
TERESA VEIGA FURTADO
Nasceu em 1967 e reside e desenvolve a sua atividade em Lisboa e Évora. É artista, Professora Associada com Agregação e Diretora do Curso de Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais, no Departamento de Artes Visuais e Design da Universidade de Évora (DAVD/EA/UÉ), integrando o Centro de História de Arte e Investigação Artística (CHAIA) da UÉ. É também colaboradora do Instituto de Tecnologias Interativas, do Laboratório Associado de Robótica e Sistemas de Engenharia do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa (ITI/LARSyS/IST-UL), e do Centro de Investigação e de Estudos em Belas‑Artes (CIEBA) da Faculdade de Belas‑Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL). As suas linhas de investigação são a arte multimédia, os estudos de género e a arte social. É doutorada em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH), com uma tese dedicada à videoarte de mulheres artistas, e em Belas‑Artes, especialidade multimédia, pela FBAUL, com investigação sobre net art e processos de cocriação com mulheres de casas de abrigo. https://home.uevora.pt/~tvf
LUÍS AFONSO
Artista Plástico, Professor Auxiliar no Departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora (DAVD/EA/UÉ) e membro integrado do Centro de História de Arte e Investigação Artística (CHAIA). É doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora (2015) e licenciado em Artes Plásticas - Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2005). Expõe regularmente o seu trabalho artístico e colabora em vários projectos de arte pública, monumentos, esculturas e simpósios internacionais. A par do ensino, a sua produção e investigação artística têm-se centrado sobre questões da matéria e a natureza da Escultura. Influenciado tanto pelos processos escultóricos académicos — saber, saber-fazer e fazer — como pelas práticas da escultura contemporânea, seu trabalho assume uma dimensão híbrida. Uma dimensão onde a escultura percorre e se encontra com outras áreas artísticas e científicas, explorando as suas correlações e sinergias. Entre os domínios de investigação destaca-se o território complexo da Arte Sonora, em particular a SoundSculpture.
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