Dora Jacinto
Nascida em Évora, é licenciada em Ciências da Informação e Documentação, em Design de Comunicação pelo Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, e mestranda em Práticas Artísticas e Artes Visuais na Universidade de Évora. Autodidata com paixão por técnicas têxteis, como o croché, bordado, ponto de cruz, tecelagem e tinturaria natural. Cria a partir da curiosidade e da experimentação, explorando o orgânico, o ser vivo e os processos transformativos que nos rodeiam enquanto criaturas deste planeta.

As suas instalações narram uma travessia pelo escuro, uma história de renascimentos, rasgos e re-encontros que revelam os vários processos e fases de transformação. No princípio há a caverna — um ventre, o escuro que contém todas as possibilidades. Onde a luz não chega, o tempo curva‑se os seres que nela existem transformam-se. Mas nada muda sozinho — é o gesto significativo de re-encontros que desencadeiam a verdadeira metamorfose. A caverna oferece o contraste necessário para que a potência revele o seu ato; é o espaço onde memórias ancestrais e matéria viva se entrelaçam, onde o silêncio e o obscuro guardam as sementes de novas formas. Entre o oculto e o manifesto, a artista convoca estados transitórios, em que a forma é um instante numa contínua cadeia de transformações. As peças marcam este itinerário sensorial e simbólico — a reconhecer no escuro não um vazio, mas um campo fecundo de possibilidades, a percepcionar a transformação não como fim, mas como movimento contínuo, a ouvir nas fibras e nos nós a história de um vir‑a‑ser que nunca termina.

Cosmogonia apresenta dois corpos emergindo desse ventre primordial. Tecidos em crochet, fios, corda e ráfia entrelaçam‑se em nós que são cicatrizes e histórias — marcas de transformações anteriores que não foram apagadas, apenas incorporadas. Os dois seres aproximam‑se como quem traz consigo o passado inteiro. Ao cruzarem‑se não se fundem nem se anulam — deslocam‑se mutuamente. Nesse limiar, a forma recua e abre espaço para o surgimento de algo outro, um ser ainda por nomear que se anuncia na tensão entre perda e ganho. A peça captura o instante em que a metamorfose está em pleno acto, sagrada e incompleta, onde todas as possibilidades permanecem em potência.

Manto é o rasgo dessa passagem. Tecida em lã de ovelha não tratada e arame, a peça conserva a textura do território e as impressões orgânicas do que a gerou. É um objecto‑memória: leve, mas carregado de vestígios — fibras que sussurram de vidas passadas, nós que guardam pequenos acontecimentos. O manto não cobre apenas um corpo; guarda uma história de nascimentos e perdas, uma continuidade que persiste para além da presença. Suspenso entre o que foi e o que virá, ele testemunha a permanência do processo transformativo.

A Batalha dos Sexos é uma peça em croché filet que usa código binário para reproduzir a frase: "Dora, ficas mesmo sexy quando te irritas!". A frase foi dirigida à artista por um colega do sexo masculino após um debate acalorado numa aula de história do 8º ano, instigado pelo professor com a premissa de superioridade masculina. A obra denuncia a naturalização da objetificação e da desvalorização das mulheres, mesmo em contextos de aprendizagem, mostrando como comentários depreciativos são proferidos com facilidade e à vontade, independentemente da idade de quem fala ou de quem ouve.
 



João Raposo Cruz
Nasceu em 2002 na cidade de Setúbal e é licenciado em Artes Plásticas e Multimédia, pela Universidade de Évora, onde atualmente frequenta o Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais. A sua prática artística atual debruça-se sobre a sua identidade, sobre género e temáticas queer. O seu trabalho é criado através de uma conceptualização sobre a sua própria experiência e cria ligações com as experiências do público que geram novas interpretações e leituras sobre si mesmo. Tudo isto materializa-se em performance, videoarte, instalação e pintura.

(Des)Vestir é uma instalação resultante da investigação do artista sobre si mesmo, um olhar para dentro de si e a ideia de desconstrução da sua identidade como um todo. O vídeo apresentado surge como registo de uma performance, primeiramente realizada num contexto individual e íntimo, mas que foi apresentada algum tempo depois ao público. No chão os objetos resultantes e utilizados na performance – o plástico espalhado e uns sapatos de salto alto – sem um corpo presente, estes objetos apontam para a ação que está registada no vídeo. O plástico surge como símbolo de libertação dos papéis que são inseridos sobre si, e os sapatos de salto alto surgem, contrariamente à ideia que lhes é associada no contexto sociocultural atual, como um objeto de empoderamento face aos ideais binários de género que gerem a sociedade.

A série Despido surge de uma tentativa do artista de auto representação, não apenas uma representação física mas procura representar algo além disso, uma luta na descoberta sobre quem realmente é. As imagens colocam o corpo, o rosto e os sapatos de salto alto, como uma representação da sua identidade, que está constrangida, torcida e é de alguma forma grotesca e aflitiva.
 



Nuno Abelho
Nuno Abelho (Lisboa, 1976), formado em Design de Moda (CIVEC, Centro de Formação da Indústria de Vestuário e Confecção, Lisboa, 1998), desenvolve a sua marca própria de roupa de autor produzindo peças únicas com um vagar contrário ao andamento veloz da indústria. A multidisciplinaridade e a proximidade da sua prática profissional com as Artes Visuais levou-o a prosseguir para a licenciatura em Artes Plásticas na Universidade de Évora, onde frequenta agora o Curso de Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais. Explora no seu trabalho questões como a reprodução da imagem, o tempo e o apagamento da memória. A fotografia instantânea é, neste momento, o seu meio de expressão. Utiliza equipamentos e tecnologias algo obsoletos ou arcaicos, como a Polaroid e câmeras fotográficas digitais instantâneas. A fragilidade e a efemeridade dos suportes das suas imagens reforçam a qualidade volátil das memórias que pretendem preservar.

As imagens que compõem Diário (V - VI) são registo de memórias, de espaços e objetos; registo de imagens e narrativas; uma visão poética sobre o comum, o mundano, o banal; o espaço em volta, interior e exterior; a contemplação de elementos esquecidos ou nunca notados; os momentos infra-ordinários que compõem o tempo, na espera dos momentos extraordinários e memoráveis. O registo dessas imagens em suportes efémeros e vulneráveis reafirma a ideia da fragilidade das memórias, do seu sentido temporário, mutável com o tempo, até ao seu apagamento. Condições gerais da natureza humana, consciente da sua própria finitude e esquecimento. Quando expostas à luz, as imagens impressas em papel térmico aceleram o seu processo de desgaste e eventual desaparecimento.
 



Tânia Andreia
Nasceu em 1984, em Trás-os-Montes, ao sol de sagitário, com capricórnio no horizonte e as luas caídas em fogo. As suas primeiras memórias são feitas de escritas inventadas, papel, borronas, pés na terra e olhos no céu. Cresceu a deambular, a contemplar e a registar visões.

Movida por diferentes interesses académicos e vontades do coração, viveu em vários lugares e estudou diversas coisas. Concluiu a licenciatura em Estudos Artísticos - Cinema, pela Universidade de Coimbra, fez formação em Terapias Naturais, em Ilustração e em Astrologia. Criou e colaborou em projetos artísticos multidisciplinares, utilizando escrita, ilustração, colagem, fotografia, vídeo e performance.

Hoje é mestranda em Práticas Artísticas em Artes Visuais na Universidade de Évora, onde desenvolve uma investigação autoetnográfica e auto-heterobiográfica de recolha e reinterpretação de fragmentos de histórias indesejáveis e de vestígios de fraturas da linhagem materna. Pretende o reconhecimento da ferida, da dor, da decomposição, da morte e da transformação cíclica das matérias do corpo. Pretende, através do ritual, revelar, integrar, ordenar e libertar a memória individual e coletiva, abrir os símbolos do feminino indómito, excluído, ocultado e silenciado, recorrendo a narrativas mitológicas e ancestrais das deusas bestas que os sustêm.

A mãe, a mãe da mãe, a mãe da mãe da mãe são relíquias de pedaços de cabelo cortado. A artista anarquiva as memórias da linhagem materna – as perdas, os lutos e os ritos de passagem – resgatando as vivências silenciadas e questionando os critérios da lembrança do indesejável.

Reza fala do desembaraçar. O vídeo regista uma performance amparada pela primavera, onde a artista arranca, repuxa e desfaz nós do cabelo emaranhado. Enrola, envolve e reenvolve os fios de cabelo morto. Em cada nó uma dor. Em cada ação uma oração. Através do ritual a artista reconhece, transforma e preserva a matéria corporal.

Maria é um véu, um manto tecido que resulta da Reza. A artista, com as suas mãos, faz dos nós de cabelo um amuleto. Transforma as pequenas mortes em proteção, aguardando o inverno que volta sempre.
 



Teresa Espada
Teresa Espada (1981) possui formação académica em Artes Plásticas pela Universidade de Évora. A sua prática desenvolve-se entre a educação artística, as Artes Visuais e a mediação cultural, áreas onde tem explorado a criação como espaço de reflexão, relação e construção de sentido. Atualmente frequenta o Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais na Universidade de Évora, onde desenvolve uma investigação centrada na experiência do Tempo enquanto dimensão corporal, afetiva e social.

Todos me puxam pela SAIA, nasce de uma imersão e recuperação de uma expressão popular que a autora usa frequentemente. Esta conduz-nos intrinsecamente para uma leitura política e afetiva onde as formas do corpo feminino se tornam constantemente e geracionalmente lugares de acumulação de tempos, tarefas e expectativas.

A obra apresenta um vestígio de um corpo ausente que persiste pela sua marca — da qual emerge uma estrutura arquitetónica têxtil que procura questionar a tensão entre o tempo próprio e o tempo disponibilizado aos outros, entre o tempo da criação, do cuidado, do trabalho e da sobrevivência quotidiana. A ausência do corpo torna-se, paradoxalmente, uma presença ampliada: um corpo expandido que ocupa o espaço através dos seus prolongamentos têxteis, carregando consigo a memória dos gestos. A obra propõe, assim, uma reflexão sobre a temporalidade contemporânea e transforma-se num arquivo de tempo vivido, onde se depositam os vestígios daquilo que se faz, do que se espera e do que, muitas vezes, fica por fazer. A condição de que um corpo que, mesmo ausente, nos surge em permanente relação e disponibilidade entre a exaustão e a resistência.

A peça procura, assim, transformar uma experiência íntima e quotidiana numa imagem coletiva, onde o têxtil deixa de ser apenas matéria e se torna testemunho de uma temporalidade invisível: o tempo do cuidado, da repetição, da resistência e da permanência.
 



Vittória Vieira
Nascida em 2002, licenciou-se em Artes Plásticas e Tecnologias Artísticas no Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) e é atualmente mestranda em Práticas Artísticas em Artes Visuais na Escola de Artes da Universidade de Évora. O seu trabalho centra-se na captura do quotidiano teatral a partir da fotografia analógica, explorando momentos de transição e presença que existem nos bastidores e no espaço performático.

A instalação Arquivo surge da observação e da deambulação. A partir de caminhadas, a artista recolhe imagens de cenários e situações quotidianas, cenas aparentemente banais e gestos que, por serem tão frequentes, muitas vezes passam despercebidos. O trabalho regista tanto as repetições do dia a dia como os momentos de ruptura que interrompem a normalidade, revelando outras possibilidades de leitura e perceção do espaço.

Através da fotografia analógica, é construído um arquivo visual de fragmentos do quotidiano, reunindo imagens e negativos que documentam esse processo de observação. Mais do que registar acontecimentos extraordinários, Arquivo procura valorizar o comum, o efémero e o transitório.