Fernando Lemos: luz do olhar
EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL
Curadoria de Marlene Oliveira
De terça-feira a domingo, 10h00-13h00 / 14h00-18h00 | Entrada livre
Inauguração: Sábado, 28 março | 17h00
Esta exposição está inserida nas comemorações do Centenário do Nascimento de Fernando Lemos (Lisboa, 3 maio de 1926 – São Paulo, 17 dezembro de 2019), figura incontornável da Arte Portuguesa do Século XX, cuja obra atravessa fronteiras geográficas, linguagens artísticas e campos de pensamento.
Mais um português à procura de coisa melhor foi a forma irónica e lúcida com que o próprio sintetizou o seu percurso vital e artístico: Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor.
Reunindo exclusivamente fotografias, da coleção da Fundação Cupertino de Miranda, realizadas entre 1949 e 1952, período decisivo e fundador da sua obra artística, produzidas num curto mas intenso intervalo de tempo, apresenta-se um dos núcleos mais singulares da fotografia portuguesa do Século XX e um momento central da experiência surrealista em Portugal. Realizadas num contexto de forte inquietação artística, política e existencial, as fotografias de Fernando Lemos não são meros registos nem exercícios formais, mas construções mentais, encenações do inconsciente e do desejo, lugares onde a luz e a sombra se tornam instrumentos de pensamento. Próximas das experiências do automatismo surrealista, mas nunca entregues ao acaso absoluto, estas imagens resultam de um equilíbrio subtil entre o impulso e o controlo, entre o inconsciente e a consciência crítica.
Como o próprio afirmou, após o primeiro gesto automático, tanto a escrita como a fotografia passaram a ser dirigidas, programadas, assumindo plenamente a sua dimensão conceptual.
Retratos, autorretratos e figuras próximas do seu círculo de amizade surgem aqui como presenças inquietantes, suspensas entre luz e sombra, revelação e ocultação. O uso dramático da iluminação, os enquadramentos cerrados, os jogos de máscara e de identidade transformam o corpo e o rosto em território simbólico, refletindo desejo, ironia, angústia e humor. São imagens que não se limitam a ser vistas: olham-nos de volta, interrogam-nos, colocam-nos numa relação direta e perturbadora com o real.
Este núcleo fotográfico desenvolve-se paralelamente à intensa participação de Fernando Lemos no movimento surrealista português, nomeadamente no período que antecede a exposição de 1952, com Vespeira e Azevedo na Casa Jalco, e a sua partida para o Brasil, em 1953. A fotografia surge, neste contexto, como um campo privilegiado de resistência e de liberdade, capaz de subverter os códigos da representação e de reabilitar a realidade, no sentido defendido por Mário Cesariny.
Embora breve no tempo, este conjunto de fotografias viria a marcar de forma duradoura a leitura da obra de Fernando Lemos e a sua inscrição na história da arte moderna e contemporânea. Como escreveu o próprio, que era “uma gota de água que se recusou ao dilúvio” — metáfora justa de uma obra que, sem nunca se dissolver no consenso, permanece viva, inquieta e luminosa.
A Fundação Eugénio de Almeida junta-se à Fundação Cupertino de Miranda para assinalarem o Centenário de Nascimento de Fernando Lemos, num gesto de homenagem. Porque, como sabemos, “viver é ser lembrado”, e estas imagens continuam, hoje, a olhar-nos com a mesma intensidade e urgência.
Marlene Oliveira, curadora
Descarregue AQUI a brochura da exposição
FERNANDO LEMOS (Lisboa, 3 maio de 1926 – São Paulo, 17 dezembro de 2019)
Foi um fotógrafo, artista plástico, designer gráfico e professor nascido em Lisboa. É considerado uma das figuras mais importantes da fotografia moderna portuguesa, associado sobretudo ao movimento surrealista. Nos finais da década de 1940, começou a destacar-se pela sua fotografia experimental, marcada por uma forte imaginação, jogos de luz e sombra e composições influenciadas pelo surrealismo. Em 1953, emigrou para o Brasil, fixando-se em São Paulo, onde desenvolveu grande parte da sua carreira artística e académica. No Brasil, trabalhou como fotógrafo, ilustrador e designer gráfico, e foi professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, contribuindo para a formação de várias gerações de artistas e arquitetos. A sua obra fotográfica, produzida sobretudo entre 1949 e 1952 em Portugal, tornou-se mais tarde amplamente reconhecida e exposta internacionalmente, sendo hoje considerada fundamental para a história da fotografia portuguesa do século XX.
MARLENE OLIVEIRA
É Diretora Artística do Museu da Fundação Cupertino de Miranda, instituição que acolhe o Centro Português do Surrealismo e uma das mais importantes coleções dedicadas a este movimento artístico em Portugal. Ao longo da sua carreira, tem-se dedicado sobretudo à curadoria, investigação e divulgação do surrealismo português e internacional, tendo organizado numerosas exposições, muitas delas em colaboração com investigadores e curadores ligados ao estudo do movimento surrealista. Entre as exposições que comissariou ou cocomissariou encontram-se mostras dedicadas a figuras e temas centrais do surrealismo português, tendo igualmente colaborado na organização de exposições itinerantes e projetos culturais em diferentes instituições museológicas e académicas, contribuindo para a investigação e divulgação do património surrealista associado à coleção da Fundação. Paralelamente à atividade curatorial, participa em iniciativas científicas e institucionais ligadas ao património cultural e às casas-museu, tendo exercido funções em organismos internacionais do setor.

