Viajar à Caldas Aulete
2020-04-01 | Rui Carreteiro
Atualizado em 2023-12-18
Na Sala da Conversadeira, no 1.º piso do Paço de São Miguel, encontra-se um retrato a carvão do escritor português Ramalho Ortigão, bisavô pelo lado materno de Maria Teresa Burnay de Almeida Bello Eugénio de Almeida. Em frente do retrato, sobre uma mesa, estão (ainda) vários volumes de uma edição antiga de As Farpas, uma das suas obras mais conhecidas e que o consagraram como um dos nossos maiores cronistas.
Numa dessas crónicas, publicada em maio de 1879, recorda a figura singular de Caldas Aulete[1], escritor, pedagogo e linguista, então recentemente desaparecido e de quem Ramalho Ortigão destaca alguns traços de personalidade:
«Extremamente anémico, magro, derreado, como quem verga ao peso permanente de uma constipação e de um lumbago friorento, vestido com três coletes e outros tantos paletós, ia pela rua vagarosamente, obliquamente, num pequeno passo indeciso, um pouco oscilante, de nariz no ar, como quem procura vagamente alguma coisa ou como quem espera alguém.
Ao encontrar um amigo, um conhecido, tinha exclamações alegres, de espírito satisfeito. Para onde ia o outro? para cima? para baixo? para a direita? para a esquerda? Pouco lhe importava isso: Caldas agradecia esse encontro de acaso, rendia-se-lhe, ia para onde o outro fosse (…).
No fundo das algibeiras dos seus três casacos trazia sempre consigo as provisões necessárias: o tinteiro, as penas e os lápis, o papel em branco, os manuscritos, as provas tipográficas, os lenços de assoar, um pacote de rapé no seu respetivo chumbo, um par de meias, um par de sapatos [e] um livro de leitura para entreter as pessoas adultas (…) Se o abandonassem, era capaz de ficar a trabalhar por esse modo, fazendo, como ele dizia, o seu croché, oito, dez ou doze horas indefinidamente, enquanto tivesse papel na mesa, tinta no tinteiro, rapé no chumbo (…)»
Uma das virtudes apontadas por Ramalho Ortigão a Caldas Aulete era a atenção que dedicava aos amigos que se encontrassem doentes e a forma singular como os distraía durante a convalescença sempre que em tais casos não era possível fazer viagens ou grandes deslocações para fora de Lisboa. Algo, aliás, que, com as devidas ressalvas, encontra algumas semelhanças nos nossos dias, mas com a diferença de, como se descreve no excerto que se segue, o espaço de uma cidade a que Caldas Aulete estava então confinado, ser hoje, por razões profiláticas, consideravelmente mais reduzido e corresponder apenas ao interior das nossas casas.
«Quando algum dos seus amigos adoecia, Caldas Aulete acampava em casa dele, para o tratar, para lhe fazer companhia. Tinha em casa do enfermo um par de sapatos, permanentes, um chumbo de rapé suplementar e – suprema prova de afeição – chegava a deixar lá ficar o croché, de reféns, de uns dias para os outros (…).
Entreter os convalescentes e distrair os cismáticos era outra das suas especialidades. ‘Levem-no para fora de Lisboa, é absolutamente preciso distraí-lo’, diziam os médicos a respeito de um amigo dele. Mas, como o sair de Lisboa era impossível, Caldas resolveu distrair o seu amigo fazendo-lhe ver na cidade aspetos inteiramente desconhecidos, cuja impressão devia equivaler à de uma viagem em país estranho. Tinha feito estudos para este fim e sabia de becos, de vielas, de botequins, de tabernas, dos sítios em que se exerciam as indústrias de deitar cartas e de levantar espinhelas – finalmente, de um conjunto de coisas interessantes, que levavam muitos dias a ver e que eram tão originais e tão estranhas como as que se passassem na China.»[2]
NOTAS
- Porto Editora – Caldas Aulete na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2023-12-18 08:42:45]. Disponível em https://www.infopedia.pt/$caldas-aulete.
- ORTIGÃO, Ramalho - As Farpas Completas: o País e a Sociedade Portuguesa. [Lisboa]: Círculo de Leitores, 2006. Vol. 2, p. 341-344. ISBN 978-972-42-3941-5.
