O Palácio da Porta de Moura

2020-04-04 | Rui Carreteiro

   

Em 1864 José Maria Eugénio de Almeida (1811-1872) adquiriu a António Pedro Delgado um amplo edifício situado no Largo da Porta de Moura que, integrado nos bens do Morgado da antiga Casa de Santa Cruz e Gouveia, pertencera ao último Duque de Aveiro - condenado no Processo dos Távoras - e aos Marqueses do Lavradio. Na documentação da Casa Eugénio de Almeida é referido como o Palácio da Porta de Moura, local onde a família projetou fixar a residência de Évora.

A planta mais antiga deste “palácio” existente no Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, de 1871, é da autoria do Engenheiro Nicolas Le Crenier que, por essa época, para além de colaborar no projeto de construção da Estação de Santa Apolónia, em Lisboa, fora encarregado pelo bisavô do Instituidor da Fundação, de fazer o levantamento cartográfico das suas herdades em Évora e de supervisionar os trabalhos de preparação e colocação dos respetivos marcos de delimitação.

A planta que assina em 1871 terá sido uma das que constava no “rolo com as plantas” referido numa carta de José Maria dirigida a Le Crenier dando-lhe conta dos desencontros e mal-entendidos originados pela remessa destes documentos através do caminho de ferro de Évora para Lisboa. De acordo com José Maria Eugénio de Almeida:

“Aconteceu, porém, um incidente deplorável a propósito da entrega do rolo com as plantas que V. Sa. me remeteu e de que fazia menção a sua carta.

Mandei, por umas poucas de vezes, procurar ao caminho de ferro as plantas que tinha remetido o Senhor Le Crenier.

Ou fosse porque o meu empregado não se soubesse explicar bem, ou porque os empregados do caminho de ferro se equivocassem, respondiam sempre que não havia plantas algumas remetidas pelo Senhor Le Crenier.

Resolvi, pois, eu próprio, ir procurá-las. E tendo obtido a mesma resposta negativa pude reconhecer, depois de algum trabalho, que os empregados do caminho de ferro entendiam pela palavra plantas, arbustos e como não vissem arbustos alguns na relação das coisas remetidas de Évora, respondiam sempre que não tinham chegado as plantas do Senhor Le Crenier (…)”[1].

O segundo conjunto de desenhos é da autoria de Francisco Goullard[2] e César Goullard que em 1875 fazem novo levantamento da planta (imagem 2) e apresentam um primeiro projeto, nunca concretizado, para a reedificação do Palácio da Porta de Moura, provavelmente, por encomenda de Carlos Maria Eugénio de Almeida que, após a morte do pai, em 1872, e visto as casas do Convento do Carmo terem cabido em partilhas à sua irmã Gertrudes Magna do Nascimento de Jesus, procurava um local para estabelecer a sua segunda residência em Évora.

A proposta dos irmãos Goullard passava por uma solução arquitetónica relativamente austera, na qual é possível vislumbrar algumas similitudes com as cavalariças e cocheiras do Parque de Santa Gertrudes, em Lisboa, também propriedade da família, designadamente, pela linha de merlões, ameias e guaritas que confere a ambos os edifícios um aspeto acastelado e revivalista.

O segundo projeto para a reedificação do Palácio da Porta de Moura é da última década do século XIX e encontra-se assinado por Eduardo Augusto da Silva[3], um “velho” conhecido da família Eugénio de Almeida desde os tempos em que José Maria e, depois, o seu filho, Carlos, tinham exercido o cargo de Provedores da Casa Pia de Lisboa, instituição onde Augusto da Silva tinha sido, na sua juventude, aluno e, mais tarde, depois de frequentar a Academia de Belas-Artes de Lisboa, professor da cadeira de desenho industrial.

Bastante mais arrojado do que a proposta dos irmãos Goullard, este projeto também não viria a ser desenvolvido. A opção da família Eugénio de Almeida para estabelecer uma residência em Évora recaiu, então, nas casas do Convento da Cartuxa que se tornou a sede da exploração da casa agrícola durante toda a primeira metade do século XX.

Quanto ao antigo Palácio da Porta de Moura, ficou sobretudo conhecido na voz da cidade como Palácio do Farrobo. Ocupava o espaço do atual Tribunal Judicial da Comarca de Évora.

NOTAS

  1. ALMEIDA, José Maria Eugénio de - [Carta] 1871 mar. 19, Lisboa [a] [Nicolas] Le Crenier, Évora [Manuscrito]. 1871. F. 78. Copiador de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1/PORT: 1/2/PRAT: 4/LIV: 27.
  2. Francisco Goullard faleceu em 1888, do que deu nota, em obituário, o Diário Illustrado. Ver Francisco Goullard. Diário Illustrado [Em linha]. N.º 5328 (1888-02-08), p. 1. [Consult. 2020-03-30]. Disponível em WWW: http://purl.pt/14328.
  3. Os trabalhos de Eduardo Augusto da Silva, entre os quais se conta o projeto do mausoléu de Alexandre Herculano para a Sala do Capítulo do Mosteiro dos Jerónimos, são recordados em dois artigos de 1888, no Diário Illustrado e em O Occidente. Ver Eduardo Augusto da Silva. Diário Illustrado [Em linha]. 5477 (1888-07-09), 4 p. [Consult. 2020-03-30]. Disponível em WWW: http://purl.pt/14328.