Um hospital de coléricos em Évora

2021-01-29 | Rui Carreteiro
Atualizado em 2021-07-16

   

Depois do surto que se propagara durante o período da guerra civil de 1832-1834, travada entre Liberais e Absolutistas, Portugal voltou a ser atingido, em meados da década de 1850, por uma nova vaga da «Cholera Morbus» à qual se seguiu a Febre Amarela. Tal como hoje, as autoridades tomaram medidas. Para conter a disseminação da doença e para socorrer os pacientes, foram implementados cordões sanitários e apertada a vigilância das fronteiras, a terrestre e a marítima, criaram-se lazaretos e improvisaram-se hospitais para os enfermos [1].

Évora não foi exceção. Logo que em 1856 se teve notícia do aparecimento de cólera «a cinco léguas» da cidade, na vila de Vimieiro, o Governador Civil, diligente, deu ordem ao Administrador do Concelho para que se instalasse um «Hospital de Coléricos» no «Palácio» do «terreiro de Dona Maria José», uma vez que o edifício tinha sido designado para esse efeito pela Junta da Saúde.

A «tomada» do «Palácio», que implicou desalojar os inquilinos, foi feita à revelia do proprietário e sob os veementes protestos de um seu empregado, mas amparada pela Lei de 10 de janeiro de 1854 que permitia às autoridades «ocupar temporariamente as casas, ou edifícios de propriedade particular, que forem necessárias, para o estabelecimento dos hospitais de coléricos, postos médicos, boticas e outras oficinas indispensáveis para este serviço de saúde (…)».

O edifício tinha sido adquirido, escassas semanas antes, por José Maria Eugénio de Almeida[2], a Dona Maria Luísa José da Costa Carvalho Patalim Sousa Lafetá, Condessa de Redondo[3], juntamente com diversos outros bens em que se incluíam as Herdades do Esbarrondadouro, Passareiros, Quintinha e Pomareiro e ainda a Estalagem do Patalim.

De Lisboa, onde residia em São Sebastião da Pedreira, logo após tomar conhecimento de que o prédio tinha sido ocupado pelas entidades locais, o novo proprietário apressou-se a dar mostras do seu descontentamento em carta de 29 de julho de 1856, endereçada a Jacinto da Rosa Abrantes e Oliveira, um dos administradores da Casa Eugénio de Almeida, em Évora:

«(…) participa V. S.ª, que o Senhor Administrador do Concelho mandou despejar o inquilino do Palácio dessa cidade, que foi do Senhor Conde de Redondo, e que hoje me pertence; tomou posse do prédio; e introduzira nele os utensílios pertencentes ao hospital dos coléricos, que nele ia estabelecer-se.

Aqui, e em toda a parte onde há respeito pelo direito de propriedade, respeito que por obrigação e por interesse nós todos devemos acatar, não costuma praticar-se isto assim. Ou se aluga o prédio ao Senhorio, ou se invoca a caridade dele, para que o empreste gratuitamente; e eu teria muito gosto de me prestar a este convite, logo que ele me fosse feito.

Aí obrou-se de outro modo, que em verdade não é regular. Em atenção ao fim para que se dispôs daquela casa, eu não suscitarei questão acerca do modo pelo qual isto se fez. Terei muita satisfação se os infelizes, que forem atacados da cólera, puderem achar nessa casa todos os socorros e alívios.

Por ora não posso ter esta convicção, por quanto se a casa de que se trata está sem reparos, sem cómodos e ameaçando ruína, como V. S.ª me diz, e como me dizem todos, parece que o estabelecimento de um hospital em tal casa não pode prestar um serviço real e sério aos doentes e que apenas preenche um fim de natureza bem oposta, que é o de poder dizer-se que há um hospital de coléricos»[4].

Na volta do correio, o administrador, Jacinto Oliveira, informou que o «Hospital de Coléricos» pouco tinha servido «porque até hoje a cólera ainda não se apresentou em grande escala», assegurando, por outro lado, que «tenho feito as minhas recomendações para que não se arruíne o prédio, nem se mude de forma em qualquer parte dele, e com isto estão cumprindo»[5].

Fosse pela contrariedade provocada pela ocupação provisória do palácio ou porque se proporcionasse uma oportunidade de negócio favorável, José Maria Eugénio de Almeida vendeu o imóvel, dois anos depois, a José Jacinto do Amaral Banha[6], família em que se manteve até à sua alienação ao Estado Português, em 1920[7].

O edifício em causa é conhecido na cidade como o Palácio dos Condes de Soure, localizado na Rua Francisco Soares Lusitano, onde funcionou até à sua extinção o Governo Civil de Évora e onde está instalado o Comando Distrital da Polícia de Segurança Pública de Évora.

NOTAS

  1. Sobre este assunto ver, entre outros, Maria Antónia Pires de Almeida - A epidemia de cólera de 1853-1856 na imprensa portuguesa. História, Ciências, Saúde - Manguinhos. Rio de Janeiro. ISSN 0104-5970. Vol. 18, n.º 4 (out.-dez. 2011), p. 1057-1071 e Laurinda Abreu - A luta contra as invasões epidémicas em Portugal: políticas e agentes, séculos XVI-XIX. Ler História. Lisboa. ISSN 2183-7791. N.º 73 (2018), p. 97-120.
  2. Propriedades: Conta Aquisição da Casa Eugénio de Almeida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. PT/FEA/CEA/PRU/AGP/02/01.
  3. Estava casada com o Conde de Redondo e era irmã de Dom Henrique José da Costa Carvalho Sousa Patalim Lafetá, 7.º e último Conde de Soure, apoiante legitimista de D. Miguel, que faleceu em Roma, em 1838.
  4. José Maria Eugénio de Almeida - [Carta] 1856 jul. 29, Lisboa [a] Jacinto da Rosa Abrantes e Oliveira, Évora [Manuscrito]. 1856. F. 86. Copiador de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1/PORT: 1/2/PRAT: 4/LIV: 8.
  5. Jacinto da Rosa Abrantes e Oliveira – [Carta] 1856 ago. 11, Évora [a José Maria Eugénio de Almeida], Évora [Manuscrito]. 1856. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1/PORT: 1/2/ PRAT: 1/CX: 3/MÇ: 2/ BF: 1.
  6. Túlio Espanca refere que o Palácio dos Condes de Soure fora vendido aos «Amarais, de Évora», não por José Maria Eugénio de Almeida, mas pelos Condes de Redondo. Túlio Espanca - Inventário Artístico de Portugal: Concelho de Évora. Lisboa: Academia Nacional de Belas-Artes, 1966, p. 110.
  7. António Miguel Alegria - O museu de Évora e o seu Público: ruturas, inovações e continuidades (1915-1999). A Cidade de Évora. ISSN 0871-1992. 2.ª Série, n.º 5 (2001), p. 364.