Um acidente hipomóvel

2021-02-19 | Rui Carreteiro

   

Em 1884, numa carta dirigia ao prestigiado fabricante de carruagens inglês H. & A. Holmes, de Derby, Inglaterra, a quem encomendara uma Double Brougham, Circular Front, N.º 48, Carlos Maria Eugénio de Almeida (1845-1914), depois de escolher a cor das rodas e da caixa, de determinar a forma das lanternas e de indicar o brasão a gravar em ambas as portas discorreu, largamente, sobre um dispositivo que considerava indispensável no seu novo hipomóvel: os travões!

Conforme explicava na carta, «aqui em Lisboa, temos grandes colinas, por isso, todas as carruagens usam um sistema mecânico para evitar descer excessivamente rápido nas ruas de acentuada inclinação. O cocheiro pode regular este mecanismo a partir do seu lugar, na almofada, caso seja necessário utilizá-lo. Diga-me, por favor, o preço deste equipamento extra que é indispensável nas carruagens no nosso país. Todas o têm! Presumo que o vosso preço para tal «mechanic enrayage» não será mais elevado do que aqui em Portugal»[1].

As preocupações de Carlos Maria com a segurança da nova atrelagem, eram evidentes. Apesar disso, os acidentes, por vezes, aconteciam. É até mesmo possível que ao escrever a carta, esta passagem lhe trouxesse à memória o que anos antes sucedera a uma das suas carruagens pela «Rua do Sol» acima, nas proximidades do novo bairro de Campo de Ourique. O episódio teve honras de primeira página no Diário Illustrado que publicou a notícia na edição do dia 19 de novembro de 1879:

«Anteontem à meia noite corria uma parelha a galope, atrelada a um trem e sem governo pela Rua do Sol acima. O guarda noturno n.º 138, da Freguesia de Santa Isabel, que nessa ocasião se achava na esquina da rua de Campo de Ourique, debalde tentou deter na carreira os animais que seguiram por aquela rua na direção das Portas dos Terramotos.

O guarda correu, então, em seguimento da carruagem e foi encontrar os cavalos caídos dentro de uma cova bastante funda que foi aberta para as obras do cano geral do novo bairro de Campo de Ourique, no começo da avenida. A lança e o jogo dianteiro da carruagem pesavam sobre os animais. O guarda apitou, acudindo o polícia 79, da 3.ª divisão, e um indivíduo conhecido no sítio pelo nome de «Calçado».

Nesta mesma ocasião chegava o cocheiro que declarou pertencer o trem ao Senhor Carlos Eugénio de Almeida. Quando seguia pelo Rato para ir buscar o Senhor Carlos Eugénio a casa do Senhor Conde Paraty, onde se achava, desceu da almofada para comprar tabaco na loja de bebidas do Rato. Os cavalos começaram logo a trotar, e quando o cocheiro quis deitar a mão ao freio de um deles foi lançado ao chão sem que, felizmente, ficasse ferido ou contuso.

O guarda noturno Joaquim dos Santo prestou os mais acertados serviços, porque se não fosse a inteligência com que se houve, ficaria a parelha, que é magnífica, em deplorável estado, e talvez que muito danificada a carruagem. Foi ele auxiliado pelo polícia que acudiu e pelo «Calçado» que conseguiu depois de grandes esforços libertar os animais, ficando ainda assim o cavalo da sela bastante magoado e o da mão ligeiramente ferido. A carruagem apenas ficou com a mola do jogo dianteiro torcida, e com uma das lanternas esmigalhadas.»

O incidente acabou em bem. A parelha de cavalos recuperou, as lanternas foram substituídas e o cocheiro restabeleceu-se do susto. Porém, aquela noite de 17 de novembro de 1884, não tinha ainda terminado. Carlos Maria regressou a casa num Coupé alugado à Companhia de Carruagens Lisbonense, mas essa… essa foi uma outra história!

NOTAS

  1. ALMEIDA, Carlos Maria Eugénio de de - [Carta] 1884 mai. 31, Lisboa [a] H. & A. Holmes, Derby [Manuscrito]. 1884. F. 381. Copiador de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR: 1/PORT: 1/2/PRAT: 5/LIV: 31.