Um eborense
2021-05-05 | Rui Carreteiro
Atualizado em 2023-12-16
No dia 12 de maio de 1957, Évora assistiu a uma das maiores manifestações do século XX na cidade. O motivo que levou milhares de pessoas a sair às ruas foi a vontade de expressar o seu agradecimento pela doação de uma avultada quantia destinada à construção de um centro hospitalar para o tratamento de doenças do foro oncológico.
As primeiras notícias sobre o gesto filantrópico foram publicadas no dia 4 de maio, sem identificar o nome do «benemérito» que preferira manter o anonimato. Na sua edição do dia seguinte, no entanto, o Notícias d’Évora já avançava que, «acobertado pelo pseudónimo de «Um Eborense», sabemos esconder-se uma das mais destacadas personalidades filantrópicas»[1]. No dia 6, por fim, a identidade da personalidade foi revelada. Para além de colocar termo aos rumores contraditórios que circulavam e de satisfazer a natural curiosidade que se instalara, a imprensa regional e nacional entendia ser «necessário vir a público o nome (…), para que o seu exemplo frutifique»[2].
A personalidade em causa chamava-se Vasco Maria Eugénio de Almeida ou, como então era mais conhecido entre os eborenses, «Engenheiro da Cartuxa», epíteto que lhe ficara em alusão ao antigo mosteiro, cuja intervenção de conservação e restauro o próprio tinha iniciado há cerca de uma década e onde, no final do século XIX, o seu avô, Carlos Maria, estabelecera o centro da gestão e administração, em Évora, da Casa Agrícola e a residência da família na cidade.
A notícia – que, afinal, se revelou a confirmação de uma inevitabilidade – propagou-se de forma célere. Das colunas dos jornais como o Diário Popular, o Diário de Notícias, O Século, o Diário Ilustrado, o Democracia do Sul ou o Notícias d’Évora, passou para as conversas dos cafés, para os encontros nos círculos associativos e, claro, tornou-se o tema dominante da Praça do Giraldo, um dos principais «centros noticiosos» da cidade na época.
A resposta dos eborenses foi a própria de quem sabe reconhecer o carácter genuíno dos gestos. No dia 12 de maio, milhares de pessoas dirigiram-se à residência do casal Vasco Maria Eugénio de Almeida e Maria Teresa Burnay de Almeida Bello Eugénio de Almeida, para expressar o seu agradecimento. Os primeiros manifestantes começaram por reunir-se cerca das 14h00 no Rossio de São Brás, iniciando aí o percurso que passou pela Rua da República, Praça do Giraldo, Rua Cândido dos Reis, e que seguiu depois até ao Mosteiro da Cartuxa pelo troço da estrada de Arraiolos correspondente à atual Avenida Condes de Vill’Alva.
A cobertura realizada pelos jornais, para além de descrever o ambiente de emoção e o caloroso aplauso que a multidão dedicou aos Condes de Vill’Alva, procurou também aferir o número de participantes. Os dados apontados variaram entre as 20 mil pessoas, referidas na edição do Diário de Notícias[3], e as 40 mil mencionadas pelo Diário Ilustrado. Face à discrepância dos números e, de certo modo, à sua inverosimilhança, é provável que o meio mais fiável de formar uma ideia quanto à ordem de grandeza da manifestação daquele domingo, 12 de maio de 1957, seja através das fotografias que, ao olhar de cada um, têm o seu modo próprio de contar a história.
Os cinco mil contos então doados ao Núcleo Regional da Liga Portuguesa Contra o Cancro seriam aplicados na construção do que ficou conhecido como o Hospital do Patrocínio, uma homenagem a Maria do Patrocínio Barros Lima, avó de Vasco Maria Eugénio de Almeida, com quem teve sempre uma relação de grande proximidade e afeto. Por vicissitudes e razões de ordem vária, a unidade hospitalar só ficou concluída mais de quatro décadas depois. Mas essa é uma outra história... Desta, a que agora se conta, talvez o mais marcante, para além das imagens das ruas de Évora repletas de pessoas, tenha sido a subtil circunstância de, pretendendo conservar o anonimato, Vasco Maria ter atribuído a «um eborense» a autoria da doação. Essa foi, de facto, a forma como sempre se viu e sentiu: um alentejano e um eborense… ainda que fosse lisboeta.

Imagem 4
Troço da estrada de Évora-Arraiolos, fotografia de autor desconhecido, 1957 (Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida)
NOTAS
- Um eborense ofereceu 5.000 contos para o início imediato da construção do Centro Regional do Alentejo da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Notícias d'Évora. N.º 17027 (1957-05-05), p. 1.
- LIMA, Sara de Lourdes Fragoso de - Cá estou. Notícias d'Évora. N.º 17032 (1957-05-11), p. 1.
- Em Évora, 20.000 pessoas em grandiosa manifestação de simpatia. Diário de Notícias (1951-05-13), p. 2.
