Às portas da guerra

2021-06-10 | Rui Carreteiro

   

A invasão da Polónia pelas tropas alemãs ao serviço do Terceiro Reich, deu início à Segunda Guerra Mundial, o conflito bélico mais devastador que a humanidade já conheceu. À tragédia de cada morte – e foram milhões, entre vítimas militares e civis – juntou-se a destruição de cidades, o drama dos refugiados, o racionamento de bens de todo o tipo, a fome.

Às «portas da guerra», as histórias pessoais do quotidiano passaram a desenrolar-se sob o espectro da catástrofe. Nos dias 20 e 23 de agosto de 1939, de Biarritz, no sul de França, onde se encontrava por motivos de saúde, o 1.º Conde de Arge, João Maria Eugénio de Almeida, descreveu com apreensão, em duas cartas enviadas à mãe, Maria do Patrocínio Barros Lima, o ambiente que se vivia:

«Minha querida mãe, tenho um verdadeiro desgosto em não poder partir hoje para Vichy como tencionava, mas era imprudência fazê-lo e só Deus sabe se o poderei fazer nos primeiros dias de setembro ou se terei de partir para aí repentinamente. A situação é muito tensa (…) Hoje, no fim da missa, houve preces pela paz, o que nunca tinha visto. (…)

Não me convinha de forma alguma sair daqui de ao pé da fronteira para o caso de ter de me retirar de urgência. Se houver aqui mobilização [militar] pára tudo, comboios, automóveis, etc. Estar aqui nestas condições é muito desagradável e se não fosse eu precisar tanto de ir a Vichy, já me tinha ido embora.»

O eclodir da guerra no dia 1 de setembro de 1939 impôs o regresso imediato do 1.º Conde de Arge a Portugal e inviabilizou os tratamentos e cuidados médicos que dramaticamente aguardava poder prosseguir em Vichy. Faleceu nesse mesmo mês, no dia 29, na casa onde residia, na Avenida António Augusto de Aguiar, n.º 138, em Lisboa[1].

NOTAS

  1. Casado com Maria Ana Pinto Leite, o 1.º Conde de Arge faleceu sem descendentes. Por testamento, instituiu a mulher «herdeira usufrutuária de tudo quanto eu puder livremente dispor à hora do meu falecimento. Da propriedade dos bens que constituem o usufruto de minha mulher, instituo herdeiros, em partes iguais, os meus sobrinhos José Maria e Vasco Maria Eugénio de Almeida, filhos de meu irmão José Maria Eugénio de Almeida, Conde de Vill'Alva».