Uma dama de ferro

2021-10-22 | Rui Carreteiro

   

A década de 1910 foi particularmente difícil para Portugal. Depois da implantação da República, viveu-se um clima de agitação política e social constante, o país entrou na 1.ª Guerra Mundial ao lado dos aliados e foi severamente afetado pela pneumónica, a «Gripe Espanhola». À escassez de bens alimentares, somou-se uma crise sanitária.

Este também não foi um período fácil para a família Eugénio de Almeida. Em 1914, a morte de Carlos Maria Eugénio de Almeida (1845-1914) colocou um enorme ponto de interrogação sobre o futuro da Casa Agrícola, numa conjuntura económica extremamente desfavorável. A gestão do património foi então assumida pela sua mulher, Maria do Patrocínio Barros Lima e Almeida, cuja tenacidade se viria a revelar providencial.

Uma das suas principais decisões foi a de aprofundar a estratégia vitivinícola estabelecida pelo marido. Com este objetivo, projetou aumentar, em 1918, a extensão da vinha da Herdade de Pinheiros, no Concelho de Évora. Os obstáculos surgiram de imediato.

Como se não bastassem as constantes «requisições» de géneros e recursos afetos à produção promovidas pelo Estado, Maria do Patrocínio deparou-se com dificuldades em dispor de alfaias para a «charruação» da terra onde previa plantar a nova vinha, num quadro marcado pela inflação acentuada, pouco favorável à contração de créditos, e pela escassez e elevado preço do ferro, consequência da corrida ao armamento suscitada pela Grande Guerra. O problema foi suplantado com um gesto de evidente determinação, ao dar instruções para se fundirem os objetos de metal que não fossem indispensáveis e aplicá-los na construção das charruas necessárias à concretização do projeto[1].

É do domínio comum o facto de se dever a José Maria Eugénio de Almeida a aquisição da quase totalidade do património fundiário, com base no qual várias gerações de descendentes desenvolveram as suas atividades agroindustriais. Menos conhecida é, no entanto, a circunstância de, para além do sogro e do mario, Maria do Patrocínio ter sido a única personalidade do ramo da família ligado à criação da Fundação a investir na aquisição de propriedades agrícolas, com a compra, em 1919, da Herdade do Freixo da Sé, Herdade do Zambujal do Calado e a Herdade dos Alpendres.

Maria do Patrocínio que, precisamente, na juventude começara por enfrentar a forte oposição do sogro ao seu casamento, viu a vida familiar ser marcada pela tragédia. Para além da perda do marido, em 1914, assistiu à morte dos quatro filhos: Maria, a primogénita, em 1871; Carlos Maria Eugénio de Almeida Júnior, em 1886, o Conde de Vill’Alva, em 1937 e o Conde de Arge, em 1939. São, por isso, raras as fotografias conhecidas de Maria do Patrocínio em que não envergue trajes de luto, conforme o costume da época impunha e como, seguramente, a mais profunda expressão da sua alma ditava, estado de espírito que se pode concluir da resposta dada, em 1919, a uma carta na qual tomou conhecimento do falecimento de um dos seus colaboradores: «os meus desgostos são tantos que já não posso com mais»[2]. Maria do Patrocínio Barros Lima faleceu no dia 27 de outubro de 1940, em Lisboa, aos 89 anos.

NOTAS

  1. Carta de Maria do Patrocínio Barros Lima dirigida a Manuel Jacinto Simeão (1918-11-09), Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Copiador de Cartas 1918-1919, fl. 116-117v.
  2. Carta de Maria do Patrocínio Barros Lima dirigida a Manuel Jacinto Simeão (1918-04-12), Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Copiador de Cartas 1917-1918, fl. 237-240.