As casas do Convento do Carmo

2022-02-14 | Rui Carreteiro

   

Entre 1856 e 1860, José Maria Eugénio de Almeida (1811-1872), bisavô do Instituidor da Fundação, adquiriu, por sub-rogação, às Casas de Redondo, Soure e Loulé um número significativo de herdades no Alentejo. Embora a família se encontrasse sediada em Lisboa, no Palácio de São Sebastião da Pedreira, a concentração de património nesta região do país e as exigências inerentes à sua gestão, levaram a fixar a sul do Tejo um segundo centro da administração da Casa Eugénio de Almeida.

De início, as necessidades de alojamento, decorrentes das frequentes deslocações a Évora, foram supridas pela instalação em estalagens ou através do arrendamento pontual de casas na zona da Praça do Giraldo. Com o passar dos anos, no entanto, as estadias cada vez mais prolongadas na cidade, o estabelecimento de relações sociais com diversas famílias e personalidades da região e o inevitável envolvimento com os múltiplos aspetos da vida da comunidade, levaram José Maria a procurar uma outra solução de habitação.

Foi assim que, por escritura de 30 de julho de 1866, tomou de arrendamento as casas do Convento do Carmo, pela renda anual de 150$000 réis, e instalou aqui a sua residência de Évora, situação que confirmou com a aquisição do imóvel à Casa de Bragança, em 1870, por sub-rogação, pela quantia de 2:790$000 réis[1].

Fundado em 1531, o Convento do Carmo, pertencente à Ordem dos Carmelitas, fora originalmente erigido à Porta da Lagoa, na então já existente Ermida de São Tomé «por mandado del Rei [D. João III] e contra a vontade do povo, por lhe tomarem a sua ermida (…) que tinham feita de esmolas na peste de 1524[2]».

Na sequência da destruição do primitivo cenóbio, ocorrida em 1663 no contexto das Guerras da Restauração, o Rei D. Afonso VI fez doação à comunidade religiosa, em 1665, do paço e do jardim localizados à Porta de Moura e integrados no património da Casa de Bragança, para aqui se edificar o novo convento. As obras de adaptação iniciaram-se em 1669 e prolongaram-se por todo o século seguinte, não chegando a ser concluídas[3]. Com o triunfo do Liberalismo e a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício foi reintegrado nos bens da Casa de Bragança que o cedeu para Seminário Metropolitano entre 1850 e 1853.

Em 1866, as casas do Convento do Carmo que José Maria começara por arrendar, eram constituídas por «três celeiros, arcadas e diversas oficinas, poço, uma cerca com árvores frutíferas, tanque com direito a meio anel de água do Aqueduto da Prata e, no pavimento superior, um dormitório com vinte quartos e duas casas em ruína». Durante o processo de negociação para a compra do convento, em 1870, José Maria não deixou de fazer valer os seus argumentos para obter um preço mais favorável, conforme se constata na proposta de aquisição, dirigida ao administrador da Casa de Bragança:

«A renda de cento e cinquenta mil réis é a mais elevada que há na cidade de Évora, com quanto haja nessa cidade outras casas arrendadas que oferecem melhor aparência e apresentam muitos mais cómodos.

O Convento do Carmo, do qual apenas foi construída a quarta parte, e esta ainda não acabada de todo, além de ter os inconvenientes que oferece sempre um convento para habitação de uma família, está atualmente tão descurado e estragado principalmente na parte superior destinada a ser habitada, que torna impossível o continuar-se nele a habitação de uma família decente, sem se fazerem obras importantes.

O telhado está arruinado e rendido, como se vê até por fora, nas covas profundas, que se notam em três lugares dele. A maior parte de madeiramento está podre.

Uma das paredes mestras, que suporta as abóbadas do andar superior está fendida em toda a sua altura e apresenta para o dormitório um bojo de quarenta e sete centímetros. Esta circunstância torna até perigosa a residência nos quartos que estão próximos.

As portas dos diversos quartos, as vidraças e portas das janelas estão umas desmanchadas, outras podres, outras sem ferragens, e todas impróprias de uma habitação decente.

O abaixo assinado não faria, de certo, o contrato que fez se não fosse a necessidade urgente que sentiu nesse tempo de ter em Évora uma casa de habitação, coisa difícil de achar para pessoa estranha à cidade, pois que todos os moradores notáveis dela ou têm casas próprias ou têm casas arrendadas nas quais estão de posse há longos anos. Além disto o suplicante tinha a justa esperança de que se fariam no Convento do Carmo as obras que o seu contrato de arrendamento lhe prometia[4]»

Após a morte de José Maria Eugénio de Almeida, o imóvel integrou o património dos descendentes e respetivos herdeiros do ramo originado pelo casamento da filha, Gertrudes Magna do Nascimento de Jesus, com Francisco Simões Margiochi.

Deste período, compreendido entre 1872 e o final da década de 2010, destaca-se a cedência do Convento do Carmo, primeiro para a instalação do Colégio das Irmãs Doroteias (entre 1896 e 1910), depois para aqui se estabelecer o Paço Arquiepiscopal, função que manteve entre 1914 e o início dos anos 1990 e, finalmente, para o funcionamento de serviços da Universidade de Évora.

NOTAS

  1. Propriedades: Conta Aquisição da Casa Eugénio de Almeida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. PT/FEA/CEA/PRU/AGP/02/01.
  2. Apud Manuel Branco; Bruno Lopes; Fernanda Olival, coord. - Marcas da Inquisição em Évora: Acervos do Museu e da Biblioteca Pública: Catálogo [Em linha]. Lisboa: Apenas Livros, 2016. [Consult. [2021-09-26]]. Disponível em WWW: https://dspace.uevora.pt. p. 5. ISBN 978-989-618-541-1.
  3. Luís Henriques - "A nova igreja do Convento do Carmo de Évora: uma perspetiva da sua paisagem sonora na segunda metade do século XVII". Progressus [Em linha]. N.º 1 (2019), p. 110-114. [Consult. 2021-09-05]. Disponível em WWW: https://www.rivistaprogressus.it. ISSN 2284-0869, e também Túlio Espanca - Inventário Artístico de Portugal: Concelho de Évora. Lisboa: Academia Nacional de Belas-Artes, 1966. p. 46.
  4. Copiador de papéis diversos C (1867-1870), fl. 170-172. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal. AR:1/PORT: 1/2 /PRAT: 4/LIV: 31.