A memória das pedras*

Ao longo da vida, Vasco Maria Eugénio de Almeida promoveu diversas obras, umas de conservação e restauro, outras visando a construção de edifícios de raiz. Num e noutro caso, uma das práticas recorrentes foi a reutilização de elementos arquitetónicos que, a não ser assim, ter-se-iam, porventura, perdido para sempre. Um desses casos foi o reaproveitamento do portal do antigo Palácio do Farrobo, à Porta de Moura, demolido em 1958.

2022-07-11 | Rui Carreteiro

   

Uma das facetas mais conhecidas do Eng.º Vasco Maria Eugénio de Almeida foi a sua ação orientada para a recuperação de património arquitetónico da cidade de Évora. Entre os principais projetos desenvolvidos, encontram-se as intervenções de conservação e restauro do Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, a Cartuxa de Évora, do Paço de São Miguel e do antigo Palácio da Inquisição.

Em bom rigor, a partir do segundo Pós-Guerra, as obras não mais deixaram de ser uma presença constante na sua vida, tanto as que empreendeu por iniciativa própria, como as que, embora desenvolvidas por outras entidades, só foram possíveis graças ao seu apoio, sob as mais diversas formas. O denominador comum a todas estas intervenções, para além da recuperação, tout court, de património de natureza histórica, era a intenção de assegurar que, uma vez reabilitados os edifícios, as funções sociais, culturais, educativas, religiosas ou mesmo residenciais que lhe eram conferidas contribuíssem para assegurar, daí por diante, a sua preservação e evitar o regresso ao estado de abandono ou de ruína.

Os estaleiros destas obras passaram a ser o «gabinete de trabalho» onde Vasco Maria ocupava longas horas a conversar com os encarregados e operários, a estudar os projetos, a congeminar alterações, a ponderar hipóteses e, o que não era incomum, a voltar ao ponto de partida sempre que uma solução se revelava menos harmoniosa com o conjunto ou pouco funcional face aos fins a que se destinava o edifício. Com isto, refazia-se o varandim, apeava-se o arco, redesenhava-se o capitel ou substituía-se o teto em masseira uma, duas, três vezes, as que fossem necessárias até tudo se encaixar como que obedecendo a uma lógica há muito traçada.

O ânimo com que encarava cada novo projeto foi bem sintetizado na carta de um amigo que, ao saber da mudança de residência do casal Eugénio de Almeida para o Páteo de São Miguel, em Évora, lamentava não poder estar presente para «dar um abraço ao Vasco, de [se] meter com ele, de brincar como costumava brincar quando ele dizia que detestava obras, que ia acabar com tudo, que não queria mais… quando a gente sabe como ele delira com obras, aprecia imenso andar com a casa às costas… É impagável, único, não há outro igual! E tudo isso lhe dá vida e o faz feliz»[1].

O «andar com a casa às costas» era uma justa referência às vezes que Vasco Maria mudou de domicílio, tanto em Lisboa como em Évora. Neste último caso, transcorridos mais de 60 após o avô Carlos Maria ter fixado a residência da família no Mosteiro da Cartuxa, e de forma a poder restituir o velho cenóbio às suas funções religiosas primitivas, mudou-se para a Quinta de Valbom, ali ao lado, espaço que habitou durante a década de 1960. Em 1970, voltou a mudar de residência, desta feita - como à distância «celebrava» o amigo -, para o Paço de São Miguel, muito embora as obras de restauro à data ainda não estivessem concluídas.

Por sua vez, na região de Lisboa, depois do falecimento do pai, em 1937, e após ter vivido algum tempo mais na Casa de Santa Marta, em Cascais, onde passara a sua juventude, mudou-se em 1940 para a capital, para o Palácio de São Sebastião da Pedreira, aquela que fora a principal residência da família desde os tempos do bisavô José Maria e onde faleceram os avós Carlos Maria e Maria do Patrocínio. Com a venda do edifício ao Estado e já casado, regressou a Cascais para viver alguns anos na Casa Branca, do Monte Estoril, habitação que mais tarde reservaria para passar os meses de verão. Os anos de 1950 ditaram novas mudanças. Retornou a Lisboa e, em distintos períodos, viveu em duas casas na Avenida da Praia da Vitória, ao Saldanha, para no final dessa década fixar a residência, agora em definitivo, na Casa de Santa Gertrudes.

Isto, claro, sem contar quer com os longos períodos de transição entre um destino e outro, passados em hotéis da capital enquanto decorriam as obras de preparação da «futura» habitação, quer com os casos em que outros locais foram equacionados como fortes possibilidades de vir a tornar-se na residência do casal Eugénio de Almeida, como sucedeu em Évora, com o novo Monte de Pinheiros - projeto de 1954[2] - onde, após a devolução do Mosteiro da Cartuxa à comunidade cartusiana no início da década seguinte, fixou o centro da exploração agrícola no Alentejo e ponderou residir.

Uma das práticas recorrentes das intervenções que realizou, mesmo quando se tratava da construção de edifícios de raiz, foi a de reaproveitar elementos arquitetónicos antigos, condenados a perderem-se para sempre no amontoado do entulho resultante da derrocada de um convento, da reconversão de um nobre palacete ou da simples demolição de «velhos» edifícios, mandados abaixo para dar lugar a um empreendimento público ou privado. Para isso, contava com a ação diligente de quantos lhe eram próximos, amigos, visitas de casa, empregados, tertulianos do Café Arcada, caixeiros, todos atentos a qualquer estrépito de obras que ecoasse na cidade. A partir desse instante, os estaleiros da nova obra passavam a estar sob o zeloso escrutínio deste pequeno exército da «causa do património», não se desse o caso de dali ser descartada uma velha janela manuelina, alguma coluna renascentista ou um lintel antiquíssimo que o dono da obra, interpelado, estivesse disposto a dar, trocar ou vender.

O desaparecido Palácio do Farrobo[3] foi um dos «protagonistas» dos vários exemplos de reutilização de elementos arquitetónicos que Vasco Maria promoveu. Localizado à Porta de Moura, o edifício fora adquirido pelo bisavô, José Maria Eugénio de Almeida, em 1864, a António Pedro Delgado pela quantia de 1.880$000 réis. A vasta área que ocupava e as inúmeras dependências que possuía levaram a utilizá-lo inicialmente como celeiro, armazém e parque de alfaias agrícolas. Durante a administração do avô, Carlos Maria, foram desenvolvidos dois projetos com vista a convertê-lo na residência da família em Évora, o primeiro de 1875, da autoria dos irmãos Francisco e César Goullard, e o segundo de 1894, assinado por Eduardo Augusto da Silva. Nenhum deles chegaria, no entanto, a ser concretizado. Ainda neste período funcionou aqui, até 1903, o escritório que a Casa Eugénio de Almeida tinha na cidade, serviço transferido no início de julho desse ano para o Mosteiro da Cartuxa.

O «Palácio das Portas de Moura» – nome pelo qual era referido na documentação contabilística da família – passou, a partir desta altura, a ser arrendado a terceiros para diferentes fins[4] até que, em 1921, na sequência de uma estratégia de investimentos fundiários delineada por Maria do Patrocínio Barros Lima e Almeida, que vinha de há alguns anos, o edifício foi vendido a António José Alves Júnior por 10.000$00 escudos[5]. Em 1934, conheceria novo proprietário[6], os Bombeiros Voluntários de Évora, embora a respetiva sede e quartel, devido à falta de verbas para as obras de adaptação, só tivessem sido aqui inaugurados em 1937[7]. Finalmente, por escritura celebrada no dia 29 de março de 1957, a Câmara Municipal comprou o imóvel por 1.100.000$00 para, após a sua demolição, ser construído o Palácio da Justiça[8].

Não se sabe se o jovem Vasco Maria, à data com 8 anos de idade, teve contacto com o prédio antes deste sair da esfera patrimonial da família em 1921. É muito provável que o tenha feito pela mão do pai, o 1.º Conde de Vill’Alva, ou da avó Patrocínio, com quem poderá ter percorrido os velhos salões empoeirados do palácio ou explorado os recantos dos seus gastos pátios interiores. Mesmo que nada disto tivesse acontecido, é certo que Vasco Maria desde cedo soube da ligação do Palácio do Farrobo ao património da Casa Eugénio de Almeida, através da memória familiar partilhada entre gerações e da documentação sobre o edifício existente no arquivo, plantas de grande formato e verbetes da «conta aquisição e rendimento» de que o próprio mandou fazer uma cópia manuscrita. Por isso, quando na manhã do dia 26 de maio de 1958[9] o prédio começou a ser demolido para dar lugar ao Tribunal da Comarca Judicial de Évora, não foi preciso aguardar pelas vozes de alerta do pequeno exército da «causa do património» para que Vasco Maria se apressasse a salvar a cantaria do portal do velho palácio.

Embora não tenha sido o caso mais conhecido de reutilização de elementos arquitetónicos que promoveu foi seguramente, de entre todos, um dos que para si se revestiu de maior significado. Para além do valor histórico e patrimonial do objeto propriamente dito, a «nova vida» que lhe conferiu resgatou da completa destruição o testemunho material de um dos edifícios que pertencera à família Eugénio de Almeida e que hoje faz parte da «Évora desaparecida». Não por completo... As pedras do antigo portal do Palácio do Farrobo são, desde então, as mesmas que suportam o portal de acesso ao Monte de Pinheiros, centro da exploração agropecuária da Fundação Eugénio de Almeida.

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Portal do Palácio do Farrobo, à Porta de Moura, em Évora, ant.1958 (fotografia de David Freitas, propriedade do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Évora)

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Atual portal do Monte de Pinheiros, em Évora, proveniente do antigo Palácio do Farrobo, e reutilizado para esse fim por Vasco Maria Eugénio de Almeida

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Fotografia da autoria de Frédéric Marjay, publicada em 1958 na obra Évora: cidade milenária e seu distrito, suas belezas e seus encantos. À direita, na imagem, pode observar-se parte da área que havia sido ocupada pelo Palácio do Farrobo, demolido naquele ano. No terreiro aberto pela demolição são visíveis algumas peças de cantaria. Em frente, ao fundo, o edifício que viria a ser também demolido para dar lugar ao tabuleiro central do Largo da Porta de Moura. É devido um agradecimento ao Senhor Dr. Miguel de Pape pela autorização concedida para a publicação desta fotografia.

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Joaquim José Perdigão Queiroga foi um dos rendeiros do Palácio do Farrobo. Foi também o inventor de um lagar móvel de azeite. Embora não tenha tido sucesso enquanto tal, reza a lenda que, graças às rodas articuladas sobre as quais assentava para ser deslocado, o lagar móvel não só ganhou a alcunha de «Patinhas», como a sua patente terá sido vendida, anos mais tarde, pelo filho do inventor, o cineasta Perdigão Queiroga – realizador do filme Fado, história de uma cantadeira -, a uma agência americana (depois conhecida pelas abreviaturas NASA), que nele se inspirou para a conceção do primeiro veículo a andar sobre … a Lua!? Em cima, na imagem, o anúncio do lagar móvel publicado na edição do Notícias de Évora, 1907-06-11.

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Imagem atual do portal principal de acesso ao Monte de Pinheiros, © Rui Carreteiro / Fundação Eugénio de Almeida, 2022.


    NOTAS

    *A ideia deste texto surgiu após uma conversa, em abril de 2022, com o Senhor Eng.º Gonçalo Cabral, a quem se agradece a informação facultada. É também devido um especial agradecimento ao Senhor Amarílio Canhoto, pela partilha das memórias das mais de duas décadas que conviveu com o casal Vasco Maria Eugénio de Almeida e Maria Teresa Burnay de Almeida Bello Eugénio de Almeida, em diferentes espaços e contextos.


  1. ABEA - Carta do Padre João Cabral, S.J., 1970-08-17, PT/FEA/ABEA/D02/Cx:38/Cp:02
  2. O projeto original do Monte de Pinheiros foi da autoria do Engenheiro Civil Augusto César de Brito e do Engenheiro Agrónomo Mário Botelho de Macedo.
  3. O Palácio estivera vinculado à Casa de Santa Cruz e Gouveia de que fora administrador o Duque de Aveiro, D. José Mascarenhas da Silva e Lencastre. Confiscados pelo Juízo da Inconfidência na sequência do designado Processo dos Távora, os bens foram reivindicados e julgados a favor do 2.º Marquês de Lavradio «como consta de uma carta de sentença que se lhe passou, extraída do processo em 1766-04-19 (…) e que transitou pela Chancelaria em 1766-04-23». O Palácio do Farrobo seria adquirido em 1862 por António Pedro Delgado ao 5.º Marquês do Lavradio a quem já o trazia de arrendamento. Tratando-se de um bem vinculado, a alienação do imóvel foi precedida de licença régia para o efeito, concedida por alvará de 27 de julho de 1861, que autorizava a «vender uma terça parte dos bens» da Casa de Santa Cruz e Gouveia para «exclusiva aplicação ao pagamento e remissão das dívidas que os oneravam». ABEA - Escritura de compra e venda do Palácio da Porta de Moura, 1864-09-07, PT/FEA/D02/K/04/06.
  4. O primeiro rendeiro foi Vicente Rodrigues Ruivo, no início do século XX. Seguiu-se, até 1912, António Lourenço Rodrigues que com o seu sócio, Joaquim Duarte Piteira (firma Rodrigues & Piteira), transferiram para aqui, nos primeiros meses de 1908, o animatógrafo que tinha começado por funcionar no Palácio de D. Manuel. O rendeiro mais longevo deste período foi Joaquim José Perdigão Queiroga, inventor de um lagar móvel «para fabricação de azeite sem acidez, premiado na exposição oleícola em junho de 1905, com quatro medalhas de prata e com privilégio de invenção».
  5. ACRPE - Livro das descrições prediais, liv. B, 3.º, fl. 84, reg. 959 e ACRPE - Livro de inscrições de transmissão, liv. 19, fl. 115v, reg. 12700.
  6. O edifício foi vendido por António José Alves Júnior e sua mulher, Eugénia de Carvalho Marquês Alves, à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Évora, pela quantia de 84.000$00 escudos. Ibidem, liv. 26, fl. 169v, reg. 17759 e também ADE - Livro de notas de Augusto de Jesus Gomes Leal, 1934-08-01, liv. 3593, 87v-90, PT/ADEVR/NOT/CNEVR/001/2815.
  7. BPE – Reservados, Ata de Inauguração da Sede e Quartel dos Bombeiros Voluntários de Évora, pasta 6.
  8. A este montante somou-se uma «parcela de terreno com a área de cinco mil cento e quinze metros quadrados na Zona da Urbanização N.º 1», destinada à construção do novo quartel dos bombeiros de Évora ACME - Atas da Câmara Municipal de Évora, liv. 11, PT/MEVR/AMEVR/AI/CME/B/A/A/001/0011/00729.
  9. Surge, por vezes, indicada como data da demolição o ano de 1963 que corresponde, efetivamente, à data da inauguração do Palácio da Justiça. ACME - Carta do Presidente da Câmara Municipal de Évora, João Luís Vieira da Silva, 1958-05-27.

ABREVIATURAS

  • ABEA Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida
  • ACME Arquivo da Câmara Municipal de Évora
  • ADE Arquivo Distrital de Évora
  • BPE Biblioteca Pública de Évora
  • ACRPE Arquivo da Conservatória do Registo Predial de Évora