O Senhor X

Embora não fosse um colecionador de obras de arte, Vasco Maria não deixou de atender às necessidades decorativas dos espaços em que habitou. Numa dessas ocasiões, aceitou a intermediação de um seu conhecido para comprar cinco esculturas ao artista Delfim Maya. O negócio que à partida não se revestia de qualquer dificuldade, mostrou-se, contudo, atribulado.

2022-12-17 | Rui Carreteiro

   

Vasco Maria Eugénio de Almeida e o escultor Delfim Maya, embora à época não se conhecessem, tinham um amigo em comum. Chamemos-lhe, para o caso, Senhor X. Tendo conhecimento pelo Senhor X de que o artista, nascido no Porto, estaria a atravessar uma fase financeira menos desafogada, Vasco Maria considerou ser um momento oportuno para investir em arte. Com a mesma discrição que sempre utilizava nestas circunstâncias, pediu ao Senhor X que mediasse a aquisição de um conjunto de peças em bronze no valor total de 35.000$00 escudos, montante considerável para a época que, de pronto e num gesto de total confiança, passou para as mãos do Senhor X.

O prestável Senhor X, assim fez. Comprou as esculturas. No entanto, em vez de pagar o seu valor total, entregou apenas 15.000$00 escudos ao Delfim Maya, dizendo que o comprador liquidaria o restante em breve. Com um prémio de mediação indevido e autoatribuído de 20.000$00 escudos, o Senhor X depressa deu uso ao dinheiro, gastando-o até ao último centavo!

Enquanto isso, no seu atelier, Delfim Maya, esperava. Tendo sido ultrapassados todos os prazos para o pagamento das peças, começou por procurar o Senhor X que, claro, o evitava fechando-se em casa a sete chaves ou, quando isso era de todo impossível, o recebia com palavras de conforto acompanhadas de comentários pouco abonatórios em relação ao Conde de Vill'Alva que acusava de «ser um tipo insensível às dificuldades dos outros». Noutras ocasiões, o Senhor X, dava-se à desfaçatez de escrever ao Delfim Maya, vitimizando-se por ter acedido a intermediar a aquisição das esculturas:

«Caro Delfim, temos andado desencontrados e a minha vida tem sido um sarilho de andanças para ganhar o pão que a família e eu comemos. Horas desencontradas, comida a correr ou comida fora. Arranjei coisa, mas que me custa os olhos da cara e me absorve totalmente. Vejo que o homem nada lhe disse pela conversa que teve com a minha mulher. Eu acho que me meti demasiadamente no assunto com desejo que o Delfim recebesse um balão de oxigénio. Parece que dei pouca sorte e agora nem que isso traga para mim inconvenientes resolver-lhe-ei o caso. Pensei que à minha carta para lá desse resposta imediata. Não deu. Na segunda-feira à noite espero poder-lhe [haver] a coisa que arrancarei a ferros ou a cutelo. Como eu me meti do princípio como se a coisa fosse minha tenho que resolver o caso. O responsável sou eu e isto é bom que fique escrito. Até segunda-feira à noite se Deus quiser. Abraço amigo do [Senhor X]»[1].

Cansado de tantas esperas, demoras e desencontros, o escultor decidiu-se, por fim, a procurar o próprio Vasco Maria Eugénio de Almeida na sua residência de Monte Estoril para solicitar a liquidação dos bronzes. Surpreendido, Vasco Maria apressou-se a escrever ao Senhor X, conferindo-lhe ainda o benefício da dúvida. Este, entre evasivas, desculpas e justificações, lá acabou por confessar a sua falta. Propôs resolver a situação de forma amigável com o saque de uma letra sobre si próprio, funcionando o documento como título de crédito até que estivesse em condições de repor os 20.000$00 escudos.

A solução proposta foi imediatamente recusada pelo Conde de Vill'Alva que deu um prazo de seis meses para a devolução do dinheiro, justificando, de forma perentória, que não admitia transformar numa relação comercial aquilo que, de facto, era um caso de polícia e que, além do mais, esta sua intransigência seria uma forma de demonstrar que, pelo menos em relação a ele, Senhor X, o Conde de Vill'Alva, era mesmo «um tipo insensível às dificuldades dos outros».

A história assumiu contornos de caricatura quando, pasme-se, o nome do Senhor X foi atribuído à rua de uma cidade do país porque, precisamente por alturas desta apropriação indevida de fundos tinha feito doação de uma certa coleção a uma entidade pública. Teria sido esta a solução encontrada por Vasco Maria para que o caso ficasse sanado? Fosse ou não, a rua poderia hoje muito bem denominar-se «Vasco Vill'Alva» que, de forma inusitada, terá contribuído, ainda que nesta circunstância, com o seu total desconhecimento, para mais uma importante ação mecenática!

No que se refere às esculturas de Delfim Maya, encontram-se hoje no Paço de São Miguel, na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora. Uma delas, na Sala da Conversadeira, representa um cavaleiro tauromáquico e não é habitualmente alvo da curiosidade dos visitantes, por desinteressados da temática ou por estranhos aos méritos estéticos ou estilísticos da peça. No entanto, a história que esteve por detrás da sua aquisição, e que agora se conhece, confere-lhe um significado muito próprio. Constitui mais uma evidência das preocupações humanas e sociais que impulsionaram os pequenos e os grandes gestos de Vasco Maria Eugénio de Almeida ao longo de uma vida cujo rumo foi, na verdade, marcado pela enorme sensibilidade que sempre demonstrou face às dificuldades de todas e de cada uma das pessoas com as quais o seu destino se cruzou.

A prova cabal disso mesmo é que, apesar da apropriação indevida de dinheiro, da difamação e da deslealdade que o Senhor X praticou, Vasco Vill’Alva não só nunca lhe moveu nenhum processo judicial, como não o denunciou publicamente, apesar de estar na posse de toda a documentação que o permitia fazer. Essa é, aliás, a exata medida do seu carácter, e também a razão pela qual a identidade do Senhor X (aspeto absolutamente indiferente para o caso), naturalmente, aqui se omite. A história da aquisição destas peças, no entanto, pela relevância que tem para conhecer e compreender a personalidade de Vasco Maria Eugénio de Almeida, não pode nem deve deixar de ser contada[2].

NOTAS

  1. Carta do Senhor X para Delfim Maya, Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida.
  2. Propositadamente, não foram mencionados neste texto datas, locais ou outros elementos de natureza idêntica, para além dos estritamente necessários. Ao longo da sua vida, apenas em dois casos se consegue identificar um tratamento diferenciado, por parte de Vasco Maria, em relação à documentação produzida, tanto de âmbito particular, como a de natureza administrativa relacionada com a gestão da Casa Eugénio de Almeida. Este foi um deles. O outro é mais uma longa história que, em comum, tem a circunstância de envolver a deslealdade de alguém em quem depositara toda a confiança e que, curiosamente, tem hoje, também, o seu nome inscrito em diversas ruas do país. Tal abordagem evidencia o quanto era importante para si o cumprimento da palavra dada e o quanto o afastamento deste princípio por parte daqueles em quem confiava, o desapontava.