1.º de maio

No dia 1 de maio, o Dia do Trabalhador, recordamos, com esta imagem de arquivo, todos os que, ao longo de décadas, contribuíram com o seu esforço, competência e dedicação, primeiro para a prosperidade da Casa Agrícola Eugénio de Almeida e, depois da constituição da Fundação, para o cumprimento da missão legada pelo seu Instituidor, Vasco Maria Eugénio de Almeida.

2023-05-01 Rui Carreteiro

   

A fotografia, com a marca «JAB Photographo Ambulante», foi realizada pelo fotógrafo amador, José António Barbosa e registou trabalhadores da Casa Agrícola Eugénio de Almeida junto a uma «locomóvel», máquina a vapor que, através de um sistema de correias, acionava o mecanismo de debulha dos cereais. Embora não se encontre datada, é provável que remonte aos primeiros anos da República, já que, em 1910, há registo da aquisição por Carlos Maria Eugénio de Almeida de uma «locomóvel de 12 cavalos de força, n.º 22420» fabricada pelos «Srs. Ransomes, Sims & Jefferies, Lda., de Ipswich, Inglaterra».

A fotografia apresenta algumas curiosidades. À direita da imagem, de fato claro, com barba, junto à locomóvel e ao carro utilizado para transportar o carvão que servia de combustível, é possível observar José Maria Eugénio de Almeida, 1.º Conde de Vill’Alva, pai do Instituidor da Fundação. Ao seu lado, de martelo na mão, trajando de escuro, o maquinista. Era habitualmente auxiliado por um «fogueiro» que, neste caso, parece ter-se «distraído» com as suas tarefas de manutenção e reparação mecânicas e faltado à chamada para o retrato. Vislumbra-se apenas o seu vulto, praticamente oculto, de costas para a câmara, localizável atrás das pipas, como que a auscultar as entranhas da locomóvel. Podem-se também identificar os designados «alimentadores», por norma dois trabalhadores que tinham como função alimentar a debulhadora com o «pão» em rama, tarefa para a qual utilizavam como proteção óculos escuros com rede[1].

Na sua obra Através dos Campos, Silva Picão descreve de forma detalhada este trabalho: «No alto da debulhadora, firme no seu posto, o alimentador destaca-se imenso pelo desembaraço que revela e pela foiteza que mostra. Nervoso e decidido, alimenta incessantemente e a preceito, desdobrando os molhos que lhe vêm à mão e atirando-os às braçadas para os batedores em giro, que desde logo os apresam, engolem e esfrangalham, numa velocidade vertiginosa. Nesse persistente redopio, todo o grão salta das espigas e segue os seus trâmites de limpeza. Dos primeiros crivos vai aos alcatruzes e dos alcatruzes corre aos arneiros, indo depois a um crivo rotativo, onde se acaba de limpar e de onde sai logo, afluindo às bicas da máquina e delas correndo de firme para os sacos ou caixote. Por sua vez a palha “faz-se” também e lá vai saindo às lufadas no couce da debulhadora. A palha conforme sai passa ao crivo do fagulheiro, onde o mesmo a separa da moinha e de alguns restos de grão. O fagulheiro agita-a de contínuo até a despejar no chão, sem bagos nem moinha. Do chão a desviam logo dois homens, como também é desviada a moinha respetiva. Ambas as coisas não mais se juntam e antes se afastam por meio de um rojão, que uma parelha arrasta, auxiliada por dois ganhões (…). Às sete da manhã ou às sete e meia, a máquina silva e o pessoal suspende. É a chamada ao almoço, que faz parar tudo. Os homens largam os serviços, tiram os óculos, lavam-se nas vasilhas de água e lá vão almoçar e descansar no sombracho, até às oito ou oito e meia. Neste meio tempo fala-se do muito ou pouco que a máquina está a tirar e do bom ou mau serviço que ela faz»[2].

O processo de mecanização do trabalho agrícola era irreversível. No quadro das profundas alterações económicas, políticas e sociais registadas no século XX, cujas origens remontam à centúria de 1800, a grande maioria das antigas profissões desse mundo rural em transformação deixaram de existir. A designação de cada uma e, sobretudo, a ligação à função a que correspondiam, desapareceram quase por completo do conhecimento quotidiano atual.

Em 1946, o Grémio da Lavoura de Évora e Viana do Alentejo organizou uma lista das «profissões no ramo agrícola nos concelhos de Évora e limítrofes», com a explicação sucinta das tarefas que lhes competiam. Entre vocábulos ainda familiares, como o de pastor, manajeiro ou vaqueiro, surgem outros muito menos comuns como «arrabadão», «surrasca» ou «manteeiro». As 75 ocupações aqui referidas estavam, no entanto, longe de esgotar a extensa nomenclatura das profissões rurais então existentes. Por outro lado, há que notar as inúmeras variações regionais e locais quanto ao seu significado específico, não sendo invulgar que um mesmo termo pudesse ser utilizado para designar trabalhos distintos.

Veja-se, a título de exemplo, a palavra «abegão», que na região de Elvas designava, por regra, quem dirigia os trabalhos agrícolas, ao passo que, não muito longe dali, em Campo Maior, esta função recebia o nome de «apeirador». Por sua vez, na região de Évora, Arraiolos, Mora, Reguengos de Monsaraz, Mourão, Viana do Alentejo, etc., o «abegão» era quem construía e reparava os carros de varais, carroças, churriões, trimbolins, carros de mão, etc. [3]. Nalguns lugares, esta profissão podia ser atribuída ao «carreteiro», vocábulo que, no entanto, era também utilizado para referir «o que trabalha com uma carreta de bois no tempo do carrego ou que tem que empregar-se com as carretas em qualquer outro transporte»[4].

Fosse qual fosse a denominação das suas profissões, foi, em larga medida graças ao conjunto de todos estes trabalhadores e a cada um deles que a Casa Agrícola Eugénio de Almeida sedimentou a sua posição no Alentejo ao longo de várias gerações. O Instituidor da Fundação, Vasco Maria Eugénio de Almeida, tinha isso bem presente. Entre os escritos, recentemente localizados, em que alinhavou não se sabe se a redação ou a alteração do seu testamento, um é particularmente revelador. Nele enuncia, como disposição de última vontade, que «a todo o pessoal contratado anualmente ou mensalmente à data da minha morte, na casa agrícola e doméstica deverá ser entregue, isento de imposto, o correspondente a um ano de contrato, como lembrança da minha amizade e gratidão». Mais palavras, para quê?

Imagem 3
Vasco Maria Eugénio de Almeida, ao centro, com trabalhadores da Casa Agrícola Eugénio de Almeida. Autor desconhecido.
Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, c.1950.


NOTAS

  1. José da Silva Picão - Através dos Campos: Usos e Costumes Agrícolo-Alentejanos (Concelho de Elvas). 2.ª ed. Lisboa: Neogravura, 1947. p. 358.
  2. Ibidem, p. 360-361. Encontra-se disponível online a edição de 1983 desta obra, publicada pela Etnográfica Press, acessível através do seguinte link: https://books.openedition.org/etnograficapress/4155.
  3. M. Carvalho Moniz - O Abegão. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, 1965. p. 148-149 (4-5).
  4. Profissões no ramo agrícola nos concelhos de Évora e limítrofes. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, PT/FEA/ABEA/D03/B.