Ai Weiwei | Niek Te Wierik | Sara Leme
Na longa duração da história, as pedras constituem um poderoso reservatório de eventos decorridos no tempo geológico e na lenta configuração da paisagem. É na pedra e na matéria da pedra que, de forma precisa, se encontra a evidência da paisagem como inscrição ancestral, mesmo quando sabemos que a duração existe no transitório, como disse Peter Handke, na simples presença, no traçado da linha do horizonte, no diálogo silencioso que as raízes estabelecem com o céu. É nesse lugar frágil, entre eternidade e sensibilidade, que se cruzam os trabalhos dos três artistas aqui expostos.
Ai Weiwei tem colocado o seu ativismo político em defesa da liberdade e dos direitos civis no centro de uma obra ampla e multiforme. Mas as suas relações com a história e a cultura chinesas permanecem fundamentais para o artista, a residir atualmente entre Pequim, Alemanha, Inglaterra e Portugal. É o que a peça agora apresentada, de 2021, confirma. Trata-se de um disco de mármore originário do Afeganistão a que o artista chamou Bi, evocandoas raízes culturais milenares do seu país. Com efeito, na cultura clássica chinesa Bi é um disco de jade utilizado em cerimónias rituais para refletir o céu. Nesta espécie de gesto de arqueologia cultural, o artista desloca o reflexo do céu para a profundidade da terra, onde os veios da pedra se formaram, assim trazendo à superfície a espessura do tempo da tradição e da geologia milenar.
Niek Te Wierik é um artista holandês há muito a viver em Portugal. Com trabalho abundante nas áreas do desenho e da pintura, o artista é um observador insaciável do meio natural que o envolve, e que depois fixa em minucioso processo de laboratório (da fotografia ao esboço, depois desenho e pintura). Nas pinturas que integram a exposição, a pedra é cor em forma de dólmen, e é sombra em forma de luz, cruzamento do horizonte milenar da pedra com a efemeridade das sombras dos olivais do Alentejo.
É precisamente uma reflexão sobre a efemeridade que nos traz o trabalho de Sara Leme, jovem artista em cujo percurso se cruzam a joalharia, a dança e a antropologia. Na exposição apresenta Room (2021), uma instalação com memória da história global recente: sobre uma tela, feita com máscaras cirúrgicas justapostas, a artista confronta-nos com imagens projetadas de montado alentejano, num plano quase sem movimento, com a ligeireza do vento animando a folhagem, como quem ensaia suspender o curso do tempo
Integrada na programação do 8º Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, a exposição interpela o tempo presente através das paisagens que somos, e convida-nos a uma viagem com a duração da poesia, entre a árvore e a sombra, entre a pedra e o horizonte.
José Alberto Ferreira
