19-02-2022 > 13-08-2022

ALVEX (VEXTRE)

Curadoria de Natalia Piñuel Martín

Maite Cajaraville

 

VEXTRE

O imaginário popular construiu uma história sobre a natureza cultural da Extremadura que responde a uma série de estereótipos ligados ao atraso socioeconómico. Historicamente, tem sido definida pela sua situação periférica e fronteiriça: um espaço minimamente articulado, de baixa densidade populacional, que responde ao que se convencionou chamar de "colonialismo interno" e que, embora geralmente ocorra sob o binómio metrópole-colónia, aqui acontece dentro de um mesmo território como centro-periferia e cidade-mundo rural. Isso implica diferentes formas de dominação que foram visíveis durante décadas com a explorações latifundiárias e a repressão a que foram submetidas as forças mais progressistas após a Guerra Civil.

Os processos migratórios têm uma constante desde o início do século passado e a identidade cultural foi sendo construída principalmente a partir do exterior através de associações e casas regionais: locais de encontro com fortes laços identitários, mas não isentos de críticas, pois perpetuavam as mesmas construções sociais que conheciam antes de partir. É a partir do interior que a verdadeira mudança deve ocorrer. Ultrapassadas as desigualdades sociais originadas pela ditadura franquista, a Extremadura vive de forma diferente e, para que os avanços prossigam, exige também a colaboração da chamada "diáspora extremenha", à qual pertence parte da classe criativa e onde se situa a artista Maite Cajaraville. Essa nova reivindicação identitária posiciona-se a partir do simbólico e do ato político, e não tanto de um ponto de vista administrativo ou que reproduza padrões de outros tempos. Os movimentos migratórios também ocorrem no século XXI entre a cidade e o mundo rural: a vida no campo e nos pequenos núcleos populacionais nada tem a ver com os estilos de vida de cinquenta anos atrás. O manifesto sobre o “futurismo rural”1 – cunhado pelos investigadores Leandro Pisano e Beatrice Ferrara – desafia os discursos capitalistas atuais sobre a ruralidade como lugar autêntico, utópico, provinciano, tradicional ou estável, idealizando-se o anacronismo destes territórios a partir daa megalópoles. O manifesto partilha uma nova mensagem baseada em “pertença versus alienação, desenvolvimento versus atraso”.

VEXTRE é desenhado como um mapa emocional em três dimensões. Uma viagem que supõe uma aproximação para redescobrir o território que habitamos e subverter essas supostas realidades. A proposta baseia-se numa escultura física que Cajaraville desenhou com a técnica de impressão 3D em 2017, durante a sua intervenção na primeira edição do programa de cultura contemporânea da Junta de Extremadura “Cáceres Abierto”. A compilação de dados e as novas tecnologias são colocadas ao serviço da arte contemporânea, e a documentação materializa-se numa peça plástica e orgânica de enorme presença e beleza estética. VEXTRE evoluiu, em 2021, para um ambiente fabricado inteiramente em formato digital. Estamos perante de uma exibição híbrida que interage com o público/espectador por meio do dispositivo móvel, gerando novos ambientes para o museu e para quem o visita. A peça, criada expressamente para o MEIAC, é um objeto virtual tridimensional produzido com meios tecnológicos após um exaustivo trabalho de documentação e processamento de dados em torno de diferentes parâmetros que correspondem a valores socioeconómicos da Extremadura - como o PIB, números de desemprego ou mobilidade da população. Juntamente com o público, surge deste modo uma série de narrativas que facilitam o diálogo e o pensamento crítico, a partir da opinião de cada um. Os dados fluem nesta peça da mesma forma como a cultura se transmite, evolui e é partilhada através de processos sociais e educativos, construindo assim a identidade. O objetivo desta exposição é redescobrir o território com uma mensagem sobre a urgência do cuidado com o meio e com as suas gentes perante a turistificação massiva que pode resultar das práticas consumistas, além de reformular preconceitos interiorizados com uma imagem tecnológica e avançada, que interfere nos padrões tradicionais com a ideia de um novo mapa de dados da Extremadura.

A paisagem gerada pela artista questiona constantemente a natureza, a cidade e o código como exemplo da inter-relação entre arte, ciência e tecnologia. A proposta junta uma iniciativa online com a qual se pretende quebrar a barreira clássica do espectador passivo, criando um perfil na rede social Instagram através da conta vextre_extremadura. Pretende-se alcançar um público amplo e diversificado para iniciar o debate, ainda antes da inauguração e lançar um exercício de reflexão: como é percebida a Estremadura no exterior? Mas, sobretudo, como se vêm os seus habitantes a partir de dentro? Além de romper as fronteiras espaciais do museu, Cajaraville convida-nos a posicionar a Extremadura em todo o mundo graças aos nossos telefones móveis, avançando com outros formatos possíveis para a exibição artística, rompendo as fronteiras do cubo branco. Este carácter autóctone e transfronteiriço do território da Extremadura leva a que a proposta seja alargada à região fronteiriça do Alentejo português, e será na Fundação Eugénio de Almeida, na cidade de Évora, que o VEXTRE renasce, provocando um novo diálogo e uma aproximação com os visitantes daquela cidade.

Falar da obra de Maite Cajaraville significa reivindicar uma das artistas pioneiras da arte digital em Espanha. A sua trajetória é um contínuo work in progress, integrando narrativas não ficcionais em diferentes projetos que trabalham em torno da media art. Uma característica fundamental ao longo de toda a sua carreira, desde o seu início na década de 90, é a capacidade de reverter imaginários e condicionamentos sociais por meio da interação com o público, utilizando para tal dispositivos coetâneos da nossa realidade a partir dos contextos da arte contemporânea. Com VEXTRE dá um passo mais além, construindo uma escultura do futuro e criando uma Extremadura expandida que reflete os interesses e as preocupações do presente nesta terra.

 

1. Pisano, Leandro & Ferrara, Beatrice. The Manifesto of Rural Futurism (2018), disponível em https://www.ruralfuturism.com