Maite Cajaraville
Alentejo, Extremadura. Arte e Território(s)
I. As regiões da Extremadura e do Alentejo coexistem num ambiente geográfico, social e cultural único. Um território caracterizado por relações vernaculares de vizinhança entre os habitantes de um e outro lado que gravitam em torno da fronteira que divide Espanha e Portugal. Uma fronteira permeável, a que chamamos aqui raia, um conceito que define esta envolvente ao mesmo tempo física e emocional, de limites ambíguos. Um território carregado de um sentimento comum de periferia, no qual a relação com o outro tem sido absolutamente necessária para aliviar a sensação de isolamento dos próprios. Um lugar que, fruto dessa condição periférica, enfrenta hoje um complexo processo de desenraizamento coletivo cujas consequências mais imediatas começamos a sentir.
II. Qual é a realidade atual dessa periferia transfronteiriça? Quais são as suas necessidades? Como será o futuro dos seus habitantes perante uma globalização cada vez mais agressiva? A cultura pode ajudar a travar o visível avanço da desertificação social ao oferecer instrumentos reais para aliviar as necessidades do(s) seu(s) território(s)?
III. É nesta zona transfronteiriça que se localizam o MEIAC, museu dependente da Junta de Extremadura, e o Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida. Dois projetos culturais de alto impacto concebidos a partir da ideia de território. Duas entidades administrativamente distintas que, com as suas realidades particulares e foco na arte contemporânea, têm vindo a trabalhar para a promoção social e cultural da Estremadura e do Alentejo. Dos seus territórios.
IV. A natural tendência simbiótica fronteiriça permitiu que, após uma série de experiências esporádicas, a Junta de Extremadura e a Fundação Eugénio de Almeida assinassem, em 2018, um Acordo de Colaboração para o intercâmbio de projetos expositivos entre o MEIAC e o Centro de Arte e Cultura, por forma a estimular o interesse em conhecer a realidade do outro através do trabalho de artistas atuais ligados aos seus territórios. Formalizou-se, assim, uma aliança necessária entre duas entidades que entendem que a arte contemporânea pode (e deve) ser mais uma peça que contribui para o crescimento do seu território. Um território partilhado.
V. Incluído no âmbito deste Acordo de Colaboração, foi apresentado no MEIAC de Badajoz, em 2021, VEXTRE (Extremadura Virtual), um projeto da artista extremenha Maite Cajaraville em volta do conceito de realidade expandida do território da Extremadura, e que, tal como previsto, chegaria a Évora durante os primeiros meses de 2022. Neste curto espaço de tempo, VEXTRE, de forma natural e quase espontânea (como quase tudo o que acontece na raia), cresceu seguindo uma lógica assumida em direção ao Alentejo, expandindo a sua narrativa para este território comum, tão carente de visibilidade enquanto unidade estratégica para um crescimento conjunto e sustentável.
VI. AL(entejo)V(irtual)EX(tremadura) é, em síntese, uma paisagem realista do território que uns e outros habitamos na Extremadura e no Alentejo. É uma visão absolutamente objetiva do natural, elaborada por um processo demiúrgico-tecnológico através do qual se moldam os dados extraídos das múltiplas realidades com as quais convivemos. ALVEX (des)materializa a verdade do território e transfere-a, assética, para o espectador, oferecendo uma poderosa ferramenta de análise e conhecimento deste todo dividido que são as duas regiões e a sua raia.
VII. Esta exposição encerra uma etapa de colaboração entre o MEIAC e o Centro de Arte e Cultura. Esta experiência permitiu inserir fortes elementos potenciadores de uma reflexão e de um estudo do nosso futuro mais imediato, a partir da qual se podem explorar as reais possibilidades que a arte e a cultura contemporâneas podem trazer para um crescimento global (não globalizado) do nosso território. A partir da Estremadura e do Alentejo, o MEIAC e o Centro de Arte e Cultura já estão a trabalhar neste próximo passo, confirmando a sua total relevância como agentes efetivos do desenvolvimento cultural, social e económico das duas regiões no quadro da cooperação transfronteiriça entre Espanha e Portugal.
Francisco T. Cerezo Vacas
MEIAC
