19-02-2022 > 13-08-2022

ALVEX (Oráculos)

Curadoria de Natalia Piñuel Martín

Maite Cajaraville

 

Oráculos

1.
Antigamente, os áugures desenhavam no ar, com gestos solenes e abertos, o limitado espaço quadrado dentro do qual se podiam ler presságios e maravilhas. Só por essa ‘janela’, quando atravessada pelo voo dos pássaros, podiam os sacerdotes interpretar os sinais que encorajavam feitos heróicos ou auspiciavam generosas conquistas em oráculos enigmáticos.

O pátio interior dos edifícios consagrados aos deuses desenhava igualmente um recorte do céu, a partir do qual se contemplavam as linhas do cosmos e se perscrutava o destino do mundo. Dessa ação de olhar e orar, elevando os olhos da terra para o céu, nasce a própria designação do templo: lugar de inquirição cósmica sobre o destino dos homens e de contemplação da vontade dos deuses.
 

2.
No nosso mundo, as remediações que nos levaram dos diferentes média aos suportes digitais parecem em tudo afastadas das condições de um espaço oracular. Que oráculo pode gerar um enigma na era web3? A lentidão do voo dos pássaros é compatível com o imediatismo das comunicações 5G? E a fábrica de eventos mediáticos pode ainda ser compatível com a interrogação do destino que levava os consulentes ao templo para interpelar os áugures e inquirir sobre ele?
 

3.
Maite Cajaraville criou VEXTRE (Virtual Extremadura) para exibição no MEIAC em 2021. Projeto híbrido, entre a realidade expandida e a instalação plástica, ele interpela de maneira rigorosa o território do qual recolhe os elementos que o geram. Com efeito, a escultura exibida em VEXTRE é o resultado de uma exaustiva leitura social, cultural e económica do território, cujos dados, distribuídos por critérios precisos, geram um objeto digital que Maite Cajaraville cria em cerâmica com recurso a uma impressora 3D.
 

4.
Podemos dizer sem errar que a escultura se apresenta como uma voz oracular. Críptica como o oráculo de outros tempos, nela falam as matérias primas da região, as razões demográficas, as constrições económicas, apresentando o território numa eloquente tradução 3D. E, como num oráculo, não são as respostas que importam, mas o que fazemos com elas. Desde logo, a possibilidade do espectador desmontar os estereótipos e ideias feitas sobre o território configura uma eficácia política assinalável. A responsabilidade perante esta «escultura do futuro», como certeiramente lhe chamou Natalia Piñuel Martín, é partilhada pela artista com as instituições e o espectador, todos envolvidos nesta reformulação do imaginário coletivo do território.
 

5.
Em Portugal, acrescentámos o Alentejo a VEXTRE. Exposição realizada no âmbito do protocolo de cooperação transfronteiriça com o MEIAC, a transformação de VEXTRE em ALVEX — Alentejo-virtual-Extremadura — resultou do aprofundamento do diálogo entre as instituições e a artista, e permitiu alargar aos dois territórios envolvidos a investigação e a criação do dispositivo oracular. Na sala, o visitante encontra as duas esculturas, num frente a frente silencioso. Idênticas no processo de criação, contíguas como os territórios que representam, eloquentemente crípticas como só os oráculos sabem ser. Elas desafiam-nos a imaginar os diálogos por vir ao mesmo tempo que nos abrem as portas à informação. Não será esta, também, a matéria de que se fazem os sonhos?

 

José Alberto Ferreira