23-02-2022
Ray
Ray Smith, Pintura Francesa nº I (pormenor), 1993

Artistas em foco (Ray Smith)

Entrada livre, limitada aos lugares disponíveis
É obrigatória a apresentação de certificado digital de vacinação (de acordo com normas da DGS em vigor).

 

Da citação na obra 'Pintura Francesa I' de Ray Smith
Com Rui Macedo

A citação é o enunciado próprio desta pintura de Ray Smith. A distância temporal das representações é condensada no suporte e meio da pintura. A citação define-se pela transposição de um fragmento de uma obra que é inserido numa outra obra. O seu trabalho de excisão e (re)combinação é uma tarefa de (re)corte e colagem, justamente porque a extração do fragmento é o que estrutura a citação. Supõe, então, uma relação de co-presença de duas obras, neste caso, e a alteração do fragmento citado, da sua significação, a partir do grau zero, pela re-contextualização.
 

Ray Smith (Brownsville, Texas, EUA. 1959)
Vive e trabalha entre Nova Iorque e Cuernavaca (México), onde cresceu. Depois de estudar pintura a fresco com artesãos tradicionais, ele recebeu educação formal em diferentes escolas de arte em ambos os países. Nessa terra fronteiriça e intercultural, soube combinar as tradições pictóricas populares do adotivo México nortenho com as reivindicações pós-modernas de Nova Iorque, misturando sabiamente o culto e o popular, o moderno e o kitsch. O seu trabalho tem sido frequentemente associado ao surrealismo, devido às suas justaposições irreais, embora talvez esteja mais próximo de uma espécie de realismo mágico. Cria cenários cheios de surpresas e repletos de seres antropomórficos e animais simbólicos. Nas suas obras, Ray Smith tenta transcrever as complexidades e incoerências da nossa sociedade: a família, a política, a cultura, as guerras ou a própria condição humana.

Pintura Francesa nº 1, 1993, exibe claramente a interação de duas linguagens. Vemos uma figura que é uma óbvia homenagem à obra A Banhista de Valpinçon, de Ingres, rodeada de sapos que invadem o espaço como uma praga bíblica; o que seria uma constante nas suas obras posteriores, ocupada por anfíbios ou aves aquáticas. A pintura penetra na aparência dos objetos, dos corpos, e revela as diferentes camadas da realidade que se escondem sob o real; o conceito resulta claro, pela utilização da textura dos veios da madeira na pele pintada sobre a madeira.

 

Rui Macedo (Évora, 1975)
Artista plástico doutorado em Pintura pela FBAUL. Das exposições individuais mais recentes, salientam-se: Lacunas, Fissuras e outros Fingimentos no Projecto Travessa da Ermida, Lisboa (2021); Sfumato na Tabacalera, Madrid (2019) e In)dispensável ou A Pintura que inquieta a colecção do museu no Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa (2019).