O Sr. Flip* trouxe convidados
*Gafanhoto, companheiro de aventuras da abelha Maia, personagens da obra Die Biene Maja und ihre Abenteuer, da autoria do escritor alemão Waldemar Bonsels, publicada pela primeira vez em 1912.
2022-01-25 | Rui Carreteiro
Depois de ultrapassado o problema da escassez de ferro motivado pela Grande Guerra, circunstância que, em 1918, quase deitara por terra o projeto de aumentar a área de vinha da Herdade de Pinheiros, devido à falta de charruas no mercado (destaque Uma «dama» de ferro, de 2021-10-22), a década de 1910 não acabaria sem uma nova contrariedade na Casa Eugénio de Almeida. Passado apenas um ano sobre estas tribulações, Maria do Patrocínio Barros Lima e Almeida viu-se forçada a enfrentar um “velho” e perigoso inimigo: uma praga de gafanhotos.
Responsáveis, ao longo da história, pela devastação de plantações e por frequentes períodos de fome que daí resultavam, as pragas de gafanhotos eram combatidas por todos os meios na tentativa de salvar as colheitas. Os prejuízos e as consequências eram de tal ordem que, para pôr fim ao flagelo ou pelo menos minimizar os estragos, o próprio Exército[1] foi com frequência mobilizado para o apoio às populações no combate aos ortópteros saltadores, «simpáticos» à vez, mas devastadores quando «arregimentados» em nuvem.
Na Casa Eugénio de Almeida, de modo a mitigar os prejuízos causados pela «invasão» de gafanhotos, foram consultados diversos especialistas sobre as medidas mais eficazes a tomar. Através de uma carta de 10 de junho de 1919, Horácio Costa, um dos guarda-livros da casa, remeteu para Évora a informação que recolhera junto de Correia Mendes sobre este assunto.
«Segundo a sua opinião é já muito tarde para fazer qualquer tratamento eficaz ou mesmo com resultados satisfatórios devido aos gafanhotos já estarem alados (…)
Tudo quanto se fizer nesta altura é ineficaz para a sua extinção e de uma despesa enorme devido aos materiais e principalmente ao pessoal que está caríssimo e sem resultado algum.
O sistema de os levar de encontro aos panos é irrisório, apanhar-se-ão muitos, mas ficam para trás muitíssimos. Apanhando-os à mão, quando de manhã estão sobre as cepas, julga o Sr. Correia Mendes ser, nesta ocasião, mais prejudicial ao fruto do que o próprio gafanhoto (...)
A solução de creolina lançada por pulverizadores é eficaz quando estão em larva ou aumentando a proporção quando estão no estado de pulgão, mas nunca quando estão alados, pois que sendo o efeito desta solução caustico nunca os poderá matar neste último estado em que a sua couraça já é bastante resistente, além de que voando eles, é mais o líquido que se perde no chão que propriamente nos gafanhotos. A despesa é grande e o resultado é nulo (...)
É preciso, pois, para que haja uma extinção eficaz, que o encarregado da vinha nunca os perca de vista e observe onde as fêmeas vão pôr os ovos, o que se dá pelo outono, nunca no terreno da vinha, mas próximo, em terrenos argilosos, arenosos ou pedregosos para onde emigram nessa época. Passados uns 15 dias da completa emigração, o encarregado da vinha irá observar cuidadosa e meticulosamente esse terreno e é fácil perceber onde estão os ovos porque o terreno cria uma crosta muito superficial que é toda cheia de buracos, além de que se encontram os cadáveres das fêmeas que morrem após a postura. Geralmente a área da postura é muito limitada e só uma boa observação a determinará.
Determinada esta área, grada-se o terreno, e assim os ovos ficarão esmigalhados ou expostos à ação do tempo que seja sol ou chuva os tornará estéreis. Esta é a mais eficaz extinção e também a mais económica.
Ainda se por qualquer eventualidade falhar ou não for possível este tratamento, espera-se que nasçam as larvas o que sucede na primeira quinzena de março – sempre com muita vigilância – nascida a larva esta arrasta-se sempre em grupos pela terra e muito devagar e então entra em ação o pulverizador e a creolina numa percentagem que pode variar, segundo o tamanho da larva (…) Ainda é eficaz este tratamento no estado de pulgão que apesar de andarem aos saltos também andam em grupos, mas neste caso aumenta-se a porção de creolina que poderá ir até 30%. Daqui para diante a sua extinção é improdutiva[2].»
NOTAS
- Embora 46 anos após a data destes acontecimentos, a RTP captou imagens para o Noticiário Nacional de junho de 1965 de brigadas do Regimento de Infantaria 16 durante a campanha de combate a uma «praga de gafanhotos na região de Évora» com recurso a «atomizadores» padiola. O vídeo encontra-se disponível para visionamento no site RTP Arquivos, a quem agradecemos a autorização concedida para a partilha deste LINK.
- COSTA, Horácio - [Carta] 1919 jun. 06, Lisboa [a] Maria do Patrocínio Barros Lima e Almeida [Manuscrito]. 1919. F. 308. Copiador Mecânico de Correspondência Expedida. Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, Évora, Portugal.
