As duas mortes de Bailote
Obras da Coleção Fundação EDP
EXPOSIÇÃO COLETIVA
Curadoria de Bruno Marchand
De terça-feira a domingo, 10h00-13h00 / 14h00-18h00 | Entrada livre
Com obras de: Alberto Carneiro, Ana Hatherly, Ana Jotta, Armanda Duarte, Carlos Nogueira, Fernanda Fragateiro, Francisco Tropa, Helena Almeida, Jorge Molder, Jorge Pinheiro, José Conduto, José Pedro Croft, Maria José Oliveira, Michael Biberstein, Paulo Brighenti, Pedro Sousa Vieira, René Bertholo, Rosário Rebello de Andrade, Rui Sanches, Rui Toscano e Vasco Costa.
Bailote é o nome de uma personagem secundária do romance A Aparição, de Vergílio Ferreira. Tida como uma das obras literárias de referência do chamado Existencialismo, o romance tem a paisagem alentejana de meados do século XX – a natural e a humana – como centro de um retrato espácio-temporal que, não revelando propriamente um lado oculto, não deixa de fixar uma outra face do vagar que dá mote à Capital Europeia da Cultura que Évora recebe durante o ano de 2027.
Se as impressões que Alberto Soares, professor chegado a Évora no início de um ano letivo, vai desvelando sobre a cidade e sobre as suas gentes não podem deixar de ser lidas como as de um estrangeiro, os seus relatos e as suas descrições revelam algo que talvez apenas um olhar exterior poderia produzir. No território dos latifúndios, foi a distância que o separava daquele lugar, aliada à argúcia do seu olhar antropólogo, que lhe permitiu diagnosticar com precisão as tensões que grassavam entre as classes em cena no Alentejo dos anos 1950, e num contexto social onde o nascimento determinava, à partida, a narrativa de uma vida inteira.
Bailote era camponês. A sua função era semear. Quando a mão deixou de ser funda, de ser capaz de “semear uma jeira num ar”, Bailote decidiu morrer. Alberto relata o momento trágico da descoberta desse facto, mas nada se sabe do enterro nem do que lá se pudesse ter dito, feito, lembrado. Esta exposição é a sua eulogia: um panegírico, um tributo aos homens e mulheres que cantavam nos campos e neles justificavam e consumiam as suas existências. À sua imagem – pontos escuros no meio da seara juliana: uma eulogia a ouro e negro.

