A diáspora das colunas

Após a extinção, em 1821, do Tribunal do Santo Ofício, o Palácio da Inquisição de Évora conheceu nos séculos seguintes profundas alterações. Poucos vestígios restam do tempo anterior àquela data. No entanto, a partir de uma planta de 1634, da autoria de Mateus do Couto, é possível estabelecer a correspondência entre espaços funcionais identificados na legenda deste documento do século XVII e zonas do atual edifício. Numa visita ao jardim do Paço de São Miguel e num passeio pela Rua do Conde da Serra da Tourega (antiga Carreira do Colégio) é também possível identificar seis colunas que pertenceram ao antigo claustro de entrada da Inquisição de Évora.

2024-01-03 | Rui Carreteiro

Última atualização: 2024-01-05

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Após a extinção, em 1821, do Tribunal do Santo Ofício1, o Palácio da Inquisição de Évora conheceu nos séculos seguintes profundas alterações fruto de demolições e de sucessivas campanhas de obras realizadas com o objetivo de isolar o Templo Romano ou adaptar o espaço a diversos usos. No edifício, poucos vestígios subsistem do tempo em que serviu as suas funções primitivas. Os mais evidentes, são os tetos em masseira, respetivamente, da casa do despacho (sala do tribunal) e do «gabinete do inquisidor» - localizados no primeiro e segundo pisos do edifício. No exterior, são também visíveis, no lintel em mármore da porta da fachada principal, a epígrafe EXVRGE . DEVS . IVDICA . CAVSAM . TVAM2 e, na fachada tardoz que dá para a Travessa das Casas Pintadas e Rua Francisco Soares Lusitano, o portal, igualmente em mármore, encimado por cartela com a representação de uma espada e de uma oliveira a ladear uma cruz, as armas da Inquisição.

Apesar dos escassos vestígios materiais existentes, é possível, com a ajuda de uma planta de 1634 da autoria do Arquiteto Mateus do Couto3, estabelecer - por vezes com segurança, noutros casos de forma mais ou menos aproximada e nalguns ainda apenas através de hipóteses -, a correspondência entre espaços funcionais identificados na legenda deste documento do século XVII e zonas do atual edifício. Para além da já mencionada casa do despacho (assinalada na planta e na respetiva legenda com o n.º 49), identifica-se, entre outras, a localização do secreto (n.º 50), de alguns cárceres (n.º 19), da casa para o fisco (n.º 13), das despensas (n.º 14), das casas de custódia (n.º 16), do quintal da limpeza dos cárceres (n.º 27), dos três pátios dos cárceres (n.º 24, 25 e 26), do oratório (n.º 51) ou da sala da casa pública do despacho (n.º 47), conforme se pode constatar na representação que se segue:

Século XVII

(8) Açougues

Planta do Palácio da Inquisição de Évora a partir do original de 1634, da autoria do Arquiteto Mateus do Couto, existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ver nota 3)

Século XXI

Templo Romano

© Jerónimo Heitor Coelho / Fundação Eugénio de Almeida (2014)

A legenda da planta de Mateus do Couto é, contudo, omissa em relação a outros espaços como, por exemplo, o que desempenhava as funções de casa do tormento. A atribuição da sua localização provável a uma ou várias das divisões aqui assinaladas sobre a planta do século XVII baseia-se, fundamentalmente, na descrição da visita de D. João V à Inquisição de Évora em 17297. De acordo com este documento, após ter visto as casas de custódia e de se ter inteirado, no final do corredor contíguo, a partir do óculo da porta principal dos cárceres, sobre a «serventia» de cada uma das portas do pátio de entrada da Inquisição, o rei «daí foi logo à casa do tormento, a qual esteve vendo com muito vagar e tudo o que nela havia que ver». Tratando-se de um relato detalhado da visita o que, de alguma forma, permite reconstituir o itinerário percorrido, é de supor que não mediaria muita distância entre a casa do tormento e a porta principal dos cárceres e as casas de custódia. A ser assim, e por uma razão de proximidade e de sequência da ligação interna dos acessos, depois de ter estado a observar o pátio de entrada através do óculo da porta principal dos cárceres, D. João V terá feito o percurso inverso pelo corredor contíguo às casas de custódia, à saída do qual voltou à sua direita e entrou na divisão n.º 42 que, intermediada por outra sala (n.º 43), comunicava com duas outras encostadas aos açougues também identificadas com o n.º 42. Corresponderia este número indicado na planta, mas omisso na legenda, à casa do tormento? A interpretação de António Borges Coelho sobre a localização do espaço que desempenhava esta função, parece não impedir tal leitura. Segundo o autor «A planta de Mateus do Couto não indica expressamente a sala do tormento (...). Inclinamo-nos, à vista da planta, a situá-la no piso térreo, numa das suas salas que também serviam de prisão, uma delas amurada ao templo romano/açougue8».

Já perfeitamente identificados na planta de Mateus do Couto encontram-se a entrada e pátio de novo para a Inquisição (sic) (n.º 11), formados por um claustro ou alpendre adossado à fachada sudeste, confinante com o Largo Marquês de Marialva. Numa fotografia do tempo em que no edifício funcionou o Hotel Alentejano (1929-1949) (Imagem 1), podem ver-se ainda os restos desta estrutura, então reduzida a duas colunas em mármore, assentes sobre bases de granito de secção quadrada, encimadas por capitéis ornados com conchas de vieira. Colocou-se em tempos a hipótese de estes dois elementos arquitetónicos serem provenientes da demolição de algum antigo convento da cidade e aqui colocados apenas com fins ornamentais. O principal candidato na voz corrente da cidade como o convento de origem das colunas foi o de São Domingos que, começado a demolir em 18369, ocupava uma parte do espaço onde viria a ser erigido o Teatro Garcia de Resende. A propósito do que restou deste cenóbio, Túlio Espanca referiu ter ainda ali visto em meados da década de 1930 «uma montanha de materiais trabalhados em mármore e granito; coluneis, bases, chaves de abóbadas e mísulas esculturadas do estilo manuelino, provenientes das ruínas do mosteiro e aplicados que foram nos mais diversos fins10.» É possível que outras evocações como esta, a disrupção do conhecimento em relação à verdadeira proveniência das colunas e as dinâmicas de construção da memória coletiva, tenham contribuído para consolidar a lenda. No entanto, apesar de reconhecer a reutilização noutros espaços de inúmeras peças de cantaria do convento dominicano, foi o próprio Túlio Espanca a identificar, claramente, as colunas em causa como pertencentes à Inquisição de Évora. Segundo o autor «o pátio, de configuração quadrangular, outrora centrado por fonte da água da Prata teve e igualmente se perdeu, alpendre de travejamento apoiado em colunata da Renascença, com capitéis ornamentados por vieiras e cordões assentes em altos pedestais de granito, cujos restos são patenteados em duas derradeiras colunas de mármore branco de Estremoz, conservadas defronte da entrada nobre do edifício11».

Esta afirmação encontra eco na planta de 1634 onde, precisamente em frente à porta principal do Palácio da Inquisição, se pode observar a representação de dois dos pilares de sustentação do alpendre ou claustro que abrigava o pátio de entrada. Trata-se, seguramente, das duas colunas que ainda ali se podiam ver em meados do século XX (Imagem 1), já que outra interpretação destas evidências, implicaria aceitar como crível, sem novos elementos a contrapor, que após a demolição do claustro onde existia uma colunata, esta tivesse sido totalmente removida, e em lugar de duas das colunas que a compunham fossem colocadas duas outras, de proveniência diferente, com fins ornamentais.

Em nota à menção que faz às duas colunas, Espanca reforça uma informação que, no entanto, não é totalmente exata. Refere que foram «(…) deslocadas as duas únicas colunas clássicas, marmóreas, subsistentes do alpendre primitivo (…)12». A trasladação das colunas encontra-se, efetivamente, documentada. Em 1961, abandonado o projeto da sociedade Forasteira - Companhia Eborense de Receção de Forasteiros, S.A.R.L. de voltar a instalar no antigo Palácio da Inquisição uma unidade hoteleira, o edifício foi adquirido pelo Eng.º Vasco Maria Eugénio de Almeida13 que aqui empreendeu uma vasta campanha de obras com o fim de adequar o espaço a estabelecimento de ensino e receber o Instituto Superior Económico e Social de Évora (ISESE), o primeiro grande projeto da Fundação Eugénio de Almeida, desenvolvido em estreita colaboração com o seu Instituidor e a Companhia de Jesus. Este projeto culminou no regresso do ensino superior a Évora em 1964, transcorridos pouco mais de dois séculos sobre a extinção da Universidade de Évora e a expulsão pelo Marquês de Pombal dos jesuítas, que asseguravam o seu funcionamento.

No âmbito desta requalificação, as velhas colunas foram removidas do local e transportadas para o Páteo de São Miguel onde, igualmente por iniciativa de Vasco Maria, decorria desde o final da década de 1950 uma outra laboriosa intervenção de conservação e restauro que visava a integral recuperação do complexo edificado situado na zona do «Castelo Velho» da cidade para aqui fixar a sua residência de Évora, instalar o arquivo e biblioteca da família e estabelecer a sede da Fundação. Fiel à prática de reaproveitar antigos elementos arquitetónicos removidos de outros espaços14, Vasco Maria começou por testar a utilização das colunas num alpendre destinado a abrigar a entrada lateral da Ermida de São Miguel, com ligação ao interior do Páteo. Esta intenção encontra-se registada numa fotografia de 1965 (Imagem 4) que parece também explicar a razão de se ter abandonado a solução face à diferença de escala evidenciada entre a altura das colunas e a linha da cobertura da ermida. Frustrada esta primeira tentativa de reaproveitamento, as colunas acabariam por servir a mesma função a escassos metros dali, na entrada principal do Paço de São Miguel (Imagem 5) cuja altura de edificação se harmonizava melhor, em proporção, com a dos dois elementos arquitetónicos em causa.

A parte em que a afirmação do grande Historiador alentejano não é exata prende-se com a circunstância de as duas colunas não serem as únicas que restaram do total de, provavelmente, oito ou doze que faziam parte do antigo claustro da entrada do Palácio da Inquisição. Quatro outras, pelo menos, resistiram ao tempo e ornamentam ainda hoje a fachada da casa nobre localizada na Rua do Conde da Serra da Tourega (antiga Carreira do Colégio) (Imagem 6), na confluência com o Largo dos Colegiais e a Rampa e Largo de São Miguel. Para além da altura ser coincidente (307 cm) e os motivos decorativos dos capitéis idênticos às que foram transferidas para o Páteo de São Miguel, estas quatro colunas, aquando da reutilização na fachada da casa da Rua do Conde da Serra da Tourega, foram colocadas em pedestais de granito de secção quadrangular, porventura reproduzidos ou reaproveitados em parte dos que suportaram o claustro de entrada da Inquisição, pedestais estes parecidos aos que se observam na Imagem 1 diante da porta principal do então Hotel Alentejano.

Quanto às duas colunas do Paço de São Miguel, a sua viagem ainda não terminara. No âmbito da intervenção de requalificação de que o edifício foi objeto entre 2011 e 2013, passaram a adornar o jardim tardoz do Monumento Nacional (Imagem 7), o mesmo sucedendo com as que suportavam o telheiro do edifício do antigo celeiro do cabido da Sé de Évora, atual Coleção de Carruagens. À semelhança de muitos outros elementos arquitetónicos reutilizados em novas construções ou em ações de conservação e restauro de espaços já edificados, a «diáspora» das velhas colunas do claustro de entrada da Inquisição, aqui identificadas, constituem exemplos da dimensão orgânica da evolução das cidades, reflexo das suas múltiplas manifestações - materiais e imateriais - e, como tal, são também fonte da sua identidade, para memória do presente e do futuro.


Imagem 3
Vasco Maria Eugénio de Almeida (à esquerda) e Fernando Alves do Rio (à direita) junto ao antigo portão de acesso ao Palácio da Inquisição. No interior, em segundo plano, é possível observar uma das colunas do claustro que ficava fronteiro ao edifício, c. 1961. Fotografia de autor desconhecido (Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida)


Imagem 4
Intervenção de conservação e restauro da Ermida de São Miguel, 1965. Fotografia de autor desconhecido (SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, IPA.00001237, DOC.00022590, FOTO.00160961)

Imagem 5
Colunas do claustro de entrada do antigo Palácio da Inquisição de Évora, a servir de suporte ao telheiro da fachada principal do Paço de São Miguel, 2004. © Jerónimo Heitor Coelho / Fundação Eugénio de Almeida (Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida)


Imagem 6
Coluna proveniente do claustro de entrada do antigo Palácio da Inquisição de Évora, atualmente a ornamentar a fachada de uma das casas nobres da Rua do Conde da Serra da Tourega (antiga Carreira do Colégio), em Évora, 2023. © Rui Carreteiro / Fundação Eugénio de Almeida


Imagem 7
Colunas provenientes do claustro de entrada do antigo Palácio da Inquisição de Évora, atualmente no jardim do Paço de São Miguel, em Évora, 2013. © Jerónimo Heitor Coelho / Fundação Eugénio de Almeida


NOTAS

  1. A extinção da Inquisição em Portugal ocorreu após a Revolução Liberal de 1820, sob proposta de Francisco Simões Margiochi. Um seu descendente e homónimo viria a casar com Gertrudes Magna do Nascimento de Jesus, tia-avó de Vasco Maria Eugénio de Almeida.
  2. Manuel Branco, Bruno Lopes, Fernanda Olival, coord. - Marcas da Inquisição em Évora: Acervos do Museu e da Biblioteca Pública: Catálogo. 2016, p. 8.
  3. ANTT - Livro das plantas e monteas de todas as Fábricas das Inquisições deste Reino e India [...] Por Matheus do Couto, Arquiteto das Inquisições deste Reino, 1634, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, liv. 470, fl. 15-18.
  4. Correspondência atual dos espaços assinalados a cores no mapa: zona de acesso/rampa (azul), bengaleiro (verde), lavabos (cor-de-laranja), sala técnica (amarelo), espaços expositivos (lilás), Pátio dos Plátanos e rua de ligação entre o Largo Marquês Marialva e o Jardim Diana (vermelho).
  5. A zona ocupada por este pátio, em torno do qual se dispunham as celas que encostavam ao Templo Romano (Inquisição Velha), foi cedida em 1844 pelo Duque de Palmela a instâncias da Comissão Municipal da cidade de Évora, «a fim de que pela demolição do mesmo edifício, já muito danificado, se dê princípio à restauração do Templo de Diana» (BPE - [Carta da Comissão Municipal da cidade de Évora, dirigida ao Duque de Palmela], 1844-12-15, Arm.º III/IV, n.º 30, [peça 2]). De acordo com Cunha Rivara, a demolição teve lugar logo nesse ano (BPE - [Carta de Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, dirigida ao Governador Civil do Distrito de Évora], 1845-09-13, Arm.º III/IV, n.º 30, [peça 2]). Gabriel Pereira referiu que «chamavam inquisição velha a esses feios pardieiros, então completamente abandonados; inquisição nova é a parte que ainda subsiste. Derribados os pardieiros ficou uma rua larga e o templo isolado (...)». Cf. Gabriel Pereira - Estudos Eborenses: O Templo Romano. As Inscrições Lapidares. Évora: Minerva Eborense, 1885, p. 6.
  6. Mencionada na descrição da visita do Rei D. João V à Inquisição de Évora no início do ano de 1729, nos seguintes termos: «Logo veio ao corredor que faz serventia para a Mesa, reparou em um recanto que faz o tal corredor e quis ver aonde ficava metido, e no vão do mesmo está a necessária, o que se lhe disse». A descrição da visita foi publicada por Túlio Espanca - Curiosidades de Évora (2.ª série): Visita de D. João V à Inquisição de Évora (1729). A Cidade de Évora. n.º 47 (janeiro-dezembro 1964), p. 159.
  7. Ibidem, p. 157-158.
  8. António Borges Coelho - Inquisição de Évora: 1533-1668. 2002, p. 43.
  9. Túlio Espanca - Miscelânea Histórico-Artística (sexta-série): Breve notícia relativa ao demolido Convento de S. Domingos. A Cidade de Évora. n.º 35-36 (janeiro-dezembro 1954), p. 154.
  10. Ibidem, 159.
  11. Idem - Inventário Artístico de Portugal: Concelho de Évora. 1966, p. 103-104.
  12. Ibidem, p. 103.
  13. ABEA - Escritura de dissolução e partilha da sociedade Forasteira - Companhia Eborense de Receção de Forasteiros, S.A.R.L., 1961-11-24, cx. 67.
  14. Recorde-se o destaque de 2022-07-11, nesta mesma página Web, com o título A memória das pedras.